20 dezembro 2007

Um Natal sem prendas

Fosse este um Natal sem prendas e eu…
… teria andado pelas ruas a gozar o frio azul destes dias gelados e a olhar para as montras das lojas de ferramentas porque preciso de substituir não interessa o quê lá em casa,
… teria andado a caminho da Segurança Social de mãos vazias dos sacos coloridos com embrulhos-ai‑cuidado-que-se-partem,
… teria quitado da minha cabeça as listas de compras onde dou comigo a hierarquizar o amor‑em‑forma‑de‑matéria que nutro por cada amigo e familiar e, pior do que isso, dou comigo a atribuir preços a cada uma destas pessoas consoante o apreço que lhes tenho,
… teria escapado às enchentes de gente nas ruas e nos centros comerciais, ao trânsito e à luta por um lugar de estacionamento, e teria, portanto, fugido do rasto de consumismo sem travões e do rasto de sonsice sem medida que se apega, e se pega, às gentes nesta altura do ano,
… e no entanto, teria jantado e almoçado com uma família bem disposta, de boca adoçada pelas iguarias únicas da época,
… teria, como sempre, marcado encontro com os amigos mais amigos aproveitando a disponibilidade que a época gera nas nossas cabeças,
… e teria sido devorada por um cândido espírito Natalício que, por uma rara vez, me deixaria a pensar que Natal, afinal, pode não ser sempre a mesma treta!

Não me parece que este viesse a ser um Natal triste, bem antes pelo contrário, tem sido um encanto de Natal. Para mim, largar por completo o Natal com prendas foi tão bom quanto levantar de vez o rabo afundado na cadeira da função pública.
Mas tenham cuidado com esta doutrina do Natal sem prendas, ela vicia-nos o espírito e faz-nos olhar à volta... digamos que de outra maneira.
Bom, agora tenho é de me preocupar em distribuir com primor este meu amor menos canónico, mas franco, por todos os amigos e família (... e seus rebentos a caminho!!).

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