29 julho 2007

então brindemos: à tua!

Rabirruivo Preto
Phoenicurus ochruros


Esta Primavera, quando entrámos na pequena adega do Casal dos Barros para acordar o vinho por já serem horas de o engarrafar, surpreendemos um Rabirruivo que atrapalhado acabou por escapar porta, ou fresta, fora.

Entretanto esquecido o incidente, foi com espanto que lá para o fim deste mês de Junho primeiro se suspeitou e depois se confirmou a existência de um ninho de Rabirruivo posto e já chocado numa das prateleiras daquele espaço. Vedado o local, o uso ficou interditado a humanos e canídeos e abriu-se um pequeno postigo junto ao tecto que logo foi adoptado como boca de cena pelos dois protagonistas da acção.

Foi à conta disto que precipitei o fim das férias Dentro do Mapa para conseguir apanhar lugar no último Domingo de representações. E foi um gosto! Foi um fim de tarde sentada, entalada debaixo das mesas do pátio, a ver, de nariz no ar como num espectáculo de Robertos, os papás Rabirruivos atarefados. O enredo era simples. Cada um à sua vez, papá e mamã, apareciam aos saltos sobre os telhados com bico carregado de insectos. Verificavam as condições do lugar (às vezes olhavam a assistência que pensava estar invisível debaixo da mesa). Depois pousavam à beira da boca de cena, sacudiam o rabo ruivo como nós faríamos para compor a indumentária antes de um encontro de cerimónia e desapareciam pelo fundo escuro do cenário. Dois segundos: lá de dentro chegava um ruído besourado e assanhado, breve como o som de uma garrafa de água com gás enquanto se desenrosca lento a tampa. A avaliar pelo chinfrim deviam ser crias de pulmões bem desenvolvidos e papo difícil de satisfazer. De bico cheio calavam-se os besouros e lá partia o progenitor para uma nova caçada num círculo de sai e regressa-com-insectos-no-bico em sessões contínuas que duraram mais do que a minha persistência de gente que tinha também um jantar para preparar.

A meio dessa semana deixaram de se ouvir as crias e de se ver os papás na sua lufa-lufa. A missão estava cumprida! E o ninho ainda voou para as mãos pequeninas e os olhos arregalados das crianças do infantário.


O Rabirruivo Preto é um passarinho de rabo ruivo, quase-todo-preto e fácil de avistar e de reconhecer. Fácil de avistar porque, apesar de preferir zonas rochosas ou escarpas, tem vindo a atrever-se a explorar cidades e, sendo assim, num jardim calmo e atento diria eu que é muito provável vê-lo passar. E fácil de reconhecer porque como a sua cauda ruiva não há outra que tão bem se destaque do breu das suas outras penas, principalmente quando a abre, qual leque incandescente, para se lançar em voo. Outra marca distinta do Rabirruivo, característica do macho a partir do segundo Outono da sua vida, é a fina pincelada a branco na extremidade das suas asas escuras. A fêmea é menos colorida, mais pardacenta e salpicada de castanhos, à semelhança dos juvenis (machos e fêmeas) durante o seu primeiro ano de vida. Bico e patas pretos, os olhos também pretos têm um debruado pontilhado que os espevita.

O Rabirruivo tem uma pose muito singela, uma postura vertical muito distinta que também nos pode ajudar a saber que é ele que ali vai. Apesar de ser uma ave pequena, de uns 14cm, é espadaúdo com peito empinado e o bico preto afilado completa o que será justo chamar de uma “silhueta elegante”.
É um tímido solitário, que nos controla com ar sério do alto de um muro ou de cima um telhado. Controla-nos a nós e a algum inimigo, porque este também é um amiguinho territorial ainda que menos violento que o outro. Também saltita pelo chão à procura de insectos ou larvas, e faz a habilidade de voar “na vertical” para apanhar bicharada nos orifícios de uma parede, de uma muralha tal osga, tal cabra montesa, tal homem aranha.
Enquanto pensa na vida, o Rabirruivo sacode a cauda e faz uns tic-tic-tic. Mas quando lhe chega a mostarda ao bico dá “estalinhos com a boca” uns guturais tack-tack plásticos quase impossível de imaginar que provenham de tal passarito. Na época do namoro, lá canta que se desalma e depois dança que se destripa antes dos factos devidos.

Na sua versão original, o ninho do Rabirruivo ocupa buracos ou frestas em rochas. Na sua versão urbana, o ninho é qualquer coisa que com aquele outro se pareça, aproveitando buracos ou cavidades em ruínas, nichos em arrecadações ou garagens ou assente algures debaixo de telha. É um ninho simples, mais “poisado” que “edificado”, feito de ervas secas, casquinhas e folhas ou musgos que depois se atapeta com cabelos, penas e outros finos fios. Entre os meses de Abril e Junho podem fazer duas posturas, cada uma em seu ninho montados próximos entre si. Construir o ninho, pôr os ovos e chocá-los são tarefas exclusivas da fêmea. O macho partilha a faina da alimentação das crias que vão sair do ninho antes de saberem voar, aprendendo esta arte em treinos arriscadíssimos já no solo, camuflados entres pedras e ervas durante uma longa dúzia de dias.

Em Portugal, o Rabirruivo está presente durante todo o ano faça chuva ou faça sol. Mas, por exemplo, já ali em França ou mais ainda pela Europa acima ele é uma personagem migradora que vem passar o Inverno cá no sul da Europa ou até ao Norte de África. Parece que na península Ibérica até temos uma subespécie só nossa: o Phoenicurus ochruros aterrimus, da qual sei apenas que tem na pancita uma plumagem mais clara. (Também cá temos o Rabirruivo-de-testa-branca, o Phoenicurus phoenicurus, mas esse é outra espécie com quem nunca me cruzei e que terá de ficar para outra altura.)



Para terminar a apresentação dos resultados desta investigação, vou ter de falar, mais uma vez, do amor britânico pelas aves que, mesmo já sabendo que são gente que até tem uma ave nacional (o nosso amigo Pisco que é o deles amigo Robin) não deixaram de me voltar a surpreender.
Acabo de descobrir que o Black Redstart (reparem por onde começam os pássaros britânicos…) é propósito q.b. para condicionar os planos de reabilitação e intervenção do espaço urbano envolvente ao Tamisa.
O Black Redstart é também conhecido pelo "bomb site bird" ou "power stations bird" (nomes brutos para um pequenote) porque usa os sítios escalavrados pelos bombardeamentos para se abrigar ou nidificar. A preocupação britânica, mais especificamente em Londres e Birmingham onde é considerado uma ave pouco comum, surge nos dias de hoje em que este habitat natural-urbano tem vindo a desaparecer, vítima das reformulações do território urbano. Numa tentativa de reduzir o impacto destas na população do Black Redstart, a London Biodiversity Partnership’s criou o BLACK REDSTART Action Plan e a Black Redstarts.org. E entre planos de acções e as próprias acções foram estudados “brown roofs” (derivados dos "green roofs"). Querem ser qualquer coisa como “telhados vivos”, como se o edifício ao ser erguido tivesse levantado com ele o pedaço do terreno em que assenta. São construídos com terra do lugar e bem ao gosto de um Black Redstar! Já foram experimentados no Creekside Education Center ou no Laban Dance Center dos suiços Herzog & De Meuron. Que God save o Black Redstart!


Depois de espreitado um pouco dos hábitos do Rabirruivo, regressamos num instante ao episódio no Casal dos Barros (agora é que é, estou mesmo quase a acabar).
Para começar, esclarece-se que o Rabirruivo surpreendido no dia do engarrafamento do vinho era então uma fêmea em prospecções para a montagem ninho.
De seguida, pelas cores da fêmea da fotografia e sobretudo pelas que vi serem as do macho (um tom escuro ainda pouco preto-preto), atrevo-me a informar-vos que o casal que se apropriou da prateleira da adega dos Barros seria um casal jovem, provavelmente no seu primeiro ano de reprodução. Jovens mas não tontos ou não teriam escolhido um lugar tão tranquilo, ideal para garantir que, após a saída do ninho dariam à sua prole as primeiras lições de voo em solo protegido. E ainda um lugar farto de matéria-prima para a “fase de acabamentos” do ninho como sejam os pêlos e pelinhos do canídeo, rei do terreno "do lado de fora da adega"!
Fazendo umas breves contas, quem sabe se no Domingo do espectáculo as crias não estavam já fora do ninho, em hora de brunch num intervalo entre as aulas de voo? Bom, se movidas com a energia de insectinhos papados, que venham eles, e que venham mais!

Será que voltarão no próximo ano?

Para me redimir de não ter (ainda) uma foto decentemente focada de um Rabirruivo com o preto das penas mesmo preto-preto, e sobretudo para que encontrem a silhueta elegante que apregoei ao início deste texto, deixo-vos este link que vos levará pelo Flickr até várias fotografias do Phoenicurus ochruros em Portugal, e ainda este, do Oiseaux.net, com fotos e mais informação.

E se entretanto forem capazes de descobrir um Rabirruivo, avisem!

25 julho 2007

Eduardo e Mariana

Domingo de Julho
Praia de São Pedro de Moel, Marinha Grande

Os Bancos devem estar cheios de dinheiro e de ousadia mas vazios de valores ou de vergonha.

Vêm já de há algum tempo estas marteladas sobre as nossas cabecinhas com anúncios dos Bancos apelando ao crédito (crédito embrulhado em papel pardo ou de lustro, crédito em caixa de cartão ou latas em forma de coração, credito para usar e deitar fora, crédito de estimação...). Nota-se bem o exagero na TV e na Rádio, principalmente à hora dos noticiários. Sai um, entra outro, espreita um terceiro e prepara-se o quarto. Bora lá, endividem-se!

Nas duas últimas semanas temos ouvido na TSF um anúncio especialmente mau.
O mais espirituoso-e-santíssimo dos bancos lembrou-se de fazer um spot publicitário para um crédito à habitação que deve ser especial sei lá porque que carga d'água. Um desgraçado, infeliz e miserável rapaz, o Eduardo, sentado no seu sofá, apregoa que estava para ali a não fazer nada e sem sequer pensar fosse no que fosse quando se lembrou de arranjar uma forma para também não pensar na Prestação da sua casa. Decidiu ir ao banco (ao espirituoso-e-santíssimo, claro) que lhe tratou logo de tudo o que é impresso e chatice e trabalho e acção.
Assim, o Eduardo volta, desgraçado, infeliz e miserável, ao seu sofá para descansar e, orgulhosamente, dedicar-se a "não pensar em ab‑solu‑tamen‑te mais nada".

Para temperar esta mixórdia, esta segunda-feira que passou juntou-se ao jovem Eduardo a menina Mariana. Ela já não tem um camuflado sotaque do norte, é de um estilo mais moderno, mais rufia mais "inapágandideia!". Mas é cá uma menina das nossas, igualmente desgraçada, infeliz e miserável, igualmente sentada num sofá, igualmente ocupada a "fazer menos do mesmo hi-hi-hi!".

Ai, tem mesmo de me sair um Dasse, como é que isto é possível? Se eu ainda tivesse a minha conta naquele espirituoso-e-santíssimo banco ia já lá cancelá-la (outra vez). Com um anúncio assim, aposto que os funcionários do balcão também devem gostar de, e devem mesmo ser incentivados a, nada pensar e nada fazer.

Força Portugal, vamos andando que para a frente é que é o nosso caminho!

21 julho 2007

Mastro Matrix

Na passada quinta-feira fomos até ao anfiteatro ao ar livre junto ao edifício principal da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, para aí assistirmos a um número de "novo circo" na disciplina do mastro chinês, uma variável de acrobacia ao trapézio, à corda, ou ao chão. É um prumo vertical, com cerca de seis metros de altura, onde o artista mostra as suas habilidades, quer aos espectadores, quer à senhora força da gravidade. Este número chama-se Contigo.

João Paulo Pereira dos Santos é o acrobata. Começou pela Capoeira, foi aluno do Chapitô, depois seguiu para França para a École Nationale de Cirque em Rosny e de seguida para o Centre Nationale des Arts du Cirque em Chalon. (deixo os links das escolas para alguém em busca do que fazer para o próximo ano lectivo!). E nestas andanças ganhou o gosto e depois o destaque no mastro chinês. Em 2004 fundou a companhia O Último Momento com o músico Guillaume Dutrieux. O Contigo é a sua segunda produção, a primeira foi (Peut-être) logo em 2004.
João Paulo Pereira dos Santos é também videasta autodidacta, autor de umas dezenas de vídeos com principal destaque para "Voar" (encomendado pela S.A.C.D. para um festival de circo e teatro de rua, o Furies) sobre um tal de Ícaro que sobe a num mastro, interpretado pelo próprio acrobata.

Rui Horta é o coreógrafo. Começou por estudar dança na tão-mas-tão-mas-tão saudosa companhia do Ballet Gulbenkian. Dançarino, professor, coreógrafo pelo mundo fora regressou a Portugal em 2000 para criar e hoje dirigir O Espaço do Tempo, um centro de artes transdisciplinares, em Montemor-o-Novo, promotor e anfitrião de experiências de arte do espectáculo.

Logo no início do nosso Contigo ouvi o mastro dizer com secura ao marinheiro: Não consegues, não consegues! O que o mastro não sabia era que este marinheiro também é acrobata e sem hesitar, num rigor de milímetros mas sem qualquer travo metálico de estilo robot, o marinheiro fez do mastro o que bem entendeu. Saltou, trepou, subiu, equilibrou-se, sentou-se, dançou, escorregou, balançou, rodopiou, afrontando o mastro com a ajuda de uma música que se lhe colava aos movimentos. Sem falhar, sem corrigir mas sendo gente com expressão e encanto. Entre tudo isto, o marinheiro executou (eu nem sei se vi bem mas pareceu-me mesmo que executou...) um salto mortal para trás a partir e para o meio do mastro (não, não fez um salto do topo do mastro, foi a meio do mastro). Por três vezes caiu-me o estômago ao chão.

Em suma? Qual Neo qual agent Smith, o João Paulo dos Santos mostrou o que é desafiar a senhora gravidade e o senhor tempo sem recorrer a efeitos especiais, pelo menos daqueles conseguidos por computador. Foi de longe melhor, muito melhor que o Matrix! Vale uma grande salva de palmas, daquelas que se dão aos verdadeiros artístas de circo.

Há tempo (desde o tão-mas-tão-mas-tão saudoso Ballet Gulbenkian) que não saía destes espectáculos de "habilidades com o corpo" com vontade de me fazer mexer imitando os artistas. Finalmente senti-o esta noite e achei que podia libertar a energia latejante saltando ao eixo num "frade" (aqueles pinázios anti-carro) que me apareceu logo ali no passeio (logo é mesmo logo quando gente e mais gente saía ainda do anfiteatro). Confesso-vos que afinal o “frade” era apenas um apoio daquelas fitas que se desenrolam para controlar o acesso a lugares e fiz uma triste figura quando, depois de um salto à parva, o terminei sem arte, com o “frade” arrancado ao chão, e a menina dos bilhetes a levar a mão à boca. Bem, pude vingar-me a caminho de casa trepando pelos sinais de trânsito. Não apareceu nenhum senhor polícia porque aquela hora devem estar a tomar café, mas ainda assim apareceu-me uma valente cãimbra. Enfim… são provas da qualidade superior deste espectáculo.

O Contigo estreou em França, em 2006 no Festival de Avignon e com grande sucesso. Em Fevereiro passado teve estreia portuguesa no CCB, em Junho esteve em Serralves. Com sorte ainda se poderá ver em digressão pelo mundo.
Em Scenes de cirque espreitem um pequeno vídeo e no site da S.A.C.D outras coisas.

16 julho 2007

A solo

Margem do Rio Febras
São Salvador de Briteiros, Guimarães

Tantos dias em lugares outros que não os meus, só eu sem outro ou outros meus e sem ter assim estado vez alguma. Deve portanto ter sido natural (apesar de ter sido coisa que me bateu à porta sem avisar) aquele período do começo da viagem em que estranhei o ritmo e me senti a esborrachar para me moldar a este novo estilo de Estar. Dá luta aturarmo-nos e cansa termos de tomar conta de nós próprios a cada minuto do dia, sobretudo em lugares desconhecidos com os seus hábitos próprios que sempre se demoram a revelar. Mas com calma lá vamos. Depois de apanharmos a passada apoderamo-nos dos lugares de uma forma ímpar, com a força e a fragilidade de sermos só um. E com o passar do tempo ficamos com a consciência bem lembrada de que para além de só um, somos mesmo, e apenas, só mais um.
Prestes a encontrar-me com gente amiga (em Vila Real) assomou-se uma saudade de ver chegar ao fim esta condição solitária, mas entretanto confortei-me pensando que a próxima é: assim que eu quiser! – ou será que senti esta saudade apenas por saber que estavam ali à frente uns braços abertos para me receber?

À partida de Lisboa trazia na mochila a pergunta: Para que me estou eu a meter nisto? Lá para meio caminho, lembrei-me dela e fui ver se já estava acompanhada de uma resposta. Nem uma resposta, nem sequer a pergunta. Mas no seu lugar encontrei outra interrogação: Como podia eu não ter vindo?

Tecto de uma bela massa à camponês
Cervejaria Martins, Guimarães

15 julho 2007

Iindo eu, indo eu...



Vaca-loira
Lucanus cervus

atentem nas asas papel-de-seda amarela
mal escondidas na ponta do corpo

A caminho da citânia de Briteiros, tendo iniciado o caminho há pouco e portanto cheia de fé e de genica, resolvi tomar um pequeno desvio de 800+800 metros para ir até Portuguediz. Esperava pelo menos desvendar o mistério de um nome daqueles no meio do mato.

Passei uma bonita ponte com-jeitinho-não-vá-ela-cair, feita só de pedras que se comprimiam entre as margens do Rio Febras (quem preferir pode tratá-lo pelo seu outro nome, Rio Várzea). Tentei adivinhar por onde estaria o caminho mas as ervas dominavam. Ajudaram-me umas fitas plásticas de vermelho e brancas, resíduos de uma prova de motas todo-o-terreno. De seguida meti um pé numa cova larga, afundei-me e as ervas ficaram num repente mais altas do que eu. Quando voltei a subir o buraco, as ervas continuavam a tapar-me a vista. Estiquei-me e nada mais que ervas. Uns passos à frente e para além das ervas: silvas! Levei a mão à cintura, apalpei um lado e depois outro… azar! não tinha trazido a catana. E a curiosidade sobre o que diz Portuguediz passou-me logo de moda. Voltei a descer orientada pelas fitas vermelhas e brancas, voltei a passar a ponte só de pedra só e passados uns metros dei de caras com um g’anda touro. Atravessava com tal ligeireza o caminho atapetado de folhas fofas de carvalho que algumas até pareciam empurrá-lo para cima. Era um escaravelhão de todo o tamanho com uma tal tenaz na fuça que mais fazia lembrar um verdadeiro par de cornos.

Em Portugal chamamos-lhe Vaca-Loira. Noutros países da Europa lembraram-se de Veado Escaravelho (Stag beetle) Veado Voador (Cerf-volant ou Ciervo Volante), Touro, ou Veado, dos Carvalhos (na Escandinávia), e como alternativa Galega um melodioso Escornaboi.
Nós, os portugueses, cambiámos o veado pela vaca e muito bem o fizemos porque, para além de não termos por cá grande fartura de veados, temos a típica vaca da região, a barrosã, com um par deles tal-qual estes. Mas porque raio fomos nós chamar Loira a este escaravelho-vaca é que ainda não consegui entender.

O Lucanus cervus é mesmo um dos maiores escaravelhos da Europa e considerado o maior de Portugal. Tão grande que alguns machos chegam aos 8cm. Este que pude observar era, como vos disse, um touro! Sem querer exagerar (e porque para além da catana também não levava régua) diria que tinha pelo menos 7 cm! Habitam em matos e florestas e são uns ecológicos trabalhadores na reciclagem de árvores mortas.

Apesar de ser um bicho inconfundível, o Lucanus cervus leva uma vida afastada dos paparazzi e por isso poucas certezas há a seu respeito. Encontrei algumas disparidades em factos que deveriam ser concretos (pesos, medidas, anos) e assim sendo preferi, para fazer este post, usar os valores apresentados no Plano Sectorial da Rede Natura 2000, pelo INC em Janeiro de 2006 (ver referência do site no fim do post) ainda que não sejam resultado de estudos levados a cabo exclusivamente em Portugal.

Não sendo uma raridade este bichos são preciosos e é necessária alguma sorte para os ver assim, nesta fugaz fase da sua vida, armados de capacete cornudo. É que a Vaca-Loira tem um ciclo de vida especialmente desproporcionado e longo.
Filha de ovos entalados em frestas de troncos, cresce larva alimentando-se do que restará da árvore. São entre 1 a 7 anos de pura engorda. Num fim de Verão, a larva enterra-se e envolve-se num casulo. A pupa demora 6 semanas a transformar-se, mas fica escondida à espera do calor. Entre o fim de Maio e o Agosto de um mesmo ano, estes adultos depois de tanto terem marinarado, dão o tudo por tudo para se reproduzirem. Ao macho cumpre voar (aqui está uma boa foto do Vaca-Loira de asas abertas) em procura da fêmea e fá-lo geralmente ao fim do dia. Alimentam-se de sumo fruta (ou talvez de nada). Ambos têm pressa, muita pressa, porque passados estes 3 meses, e tendo ou não cumprido a sua incumbência, morrerão.
As hastes do macho servem para lutar contra outros machos. Matar ou morrer são acontecimentos possíveis mas muitas vezes a luta apenas serve para tirar o mais fraco do caminho (tronco abaixo, por exemplo). São também usadas para reter a fêmea durante o acto sexual (cuidado com os menores, papás!). As hastes da fêmea, com pouco destaque e aparentemente inofensivas, servem para morder e são venenosas.

Baralha-me este estilo de vida "descartável", como uma larva tantos anos cega que se transforma na mais bonita e alegre das crisálidas para morrer no instante de um sopro.
Acho que sei da existência de umas pessoas assim. Quer dizer, nenhum hominídeo aspira a rematar a sua testa com umas hastes destas, mas em vez disso alguns compram carros ou pagam músculos no ginásio para cativarem um parceiro sexual. Tal Vaca-Loira vivem só para isto durante o breve instante em que se esgota o fósforo da sua vida.
Despeço-me espantada como a natureza se deixa consumir assim, e enjoada de olhar para o cleóptero e suas antecessoras larvas.

O Lucanus cervus está incluído no anexo II da Directiva “Habitats” que agrupa o que foi considerado “ameaçado no território da União Europeia”.

Para este post recorri a vários sites. Os preferidos foram: ICN,Young People's Trust for the Environment,e o melhor para o fim, até porque depois descobrirão que este tem alma portuguesa! com destaque merecido para a criativa demonstração do ciclo de vida do Lucanus cervus.





Tão pintadinhas de fresco que ainda falta limpar as ervas
(pois, e fazer um mapa)

12 julho 2007

Citânia de Briteiros

Citânia de Briteiros

Poupo a vergonha de nunca ter ouvido falar deste lugar pelo facto de, entre a meia dúzia de gente a quem entretanto falei dele, apenas a minha avó o conhecer e ter mesmo lá estado. Na Freguesia de Briteiros de São Salvador, 15 km Norte de Guimarães, conserva-se no topo do monte de São Romão um bonito castro datado da Proto-História. Chama-se citânia de Briteiros e dela se diz ser uma das mais “expressivas” entre todos os castros característicos do Noroeste da Península Ibérica. Alguns estudiosos do lugar crêem que seja uma das mais antigas, com uma ocupação a remontar ao Neolítico Final (parece-me que uns 4mil anos a.C).

(Num instante esclareço que: as citânias são castros grandes, estabelecidos antes da ocupação romana; a Proto-História é um pomposo nome dado ao período da História que fica entre a Pré-História e a Antiguidade Clássica, arrumado desde o séc.XI a.C até o séc.I a.C. incluindo as Idades do Bronze e do Ferro).

Fica-se logo de olhos vidrados naquela paisagem sulcada a pequenos muros rectos ou circulares onde se sente que andou gente. Para além das vias bem desenhadas, algumas delas com um pequeno caneiro lateral, espantem-se com as habitações circulares e as suas antecâmaras, com a enorme Casa do Conselho (foto do fundo) com banquinho incluído, com o Balneário (em palavras de hoje chamar-lhe-íamos uma sauna, com banho de vapor quente e de seguida água fria) ou com as duas casas recuperadas por Francisco Sarmento (ler à frente) mas nem por isso do seu agrado. De estranhar será ver uma pequena capela cristã com um cemitério, que se pensam serem datados do séc. X ou XI.


Em 1875 e por iniciativa própria, o vimaranense Francisco Martins Sarmento (homem abastado e interessado, advogado de formação, poeta de coração, escritor frustrado e, finalmente, arqueólogo e fotógrafo por exclusão de partes) deu início a escavações arqueológicas neste lugar que há muito mostrava estranhas arrumações de granito. Uns anos depois, o Senhor Francisco já tinha comprado os terrenos e andava entusiasmadíssimo a exibir as suas descobertas aos estudiosos estrangeiros de então que se deslocaram em massa a Briteiros para observar estas descobertas e foram recebidos com banda musical e tudo.

Todos os frutos das suas investigações e escavações acabaram legados à Sociedade Martins Sarmento. Para além da Citânia (e de outras 1500 coisas de tamanho mais pequeno), são património desta sociedade dois Museus: o Museu Arqueológico Martins Sarmento e o Museu da Cultura Castreja.

O primeiro, no centro da cidade de Guimarães, ocupa parte do edifício-sede (projecto do famoso arquitecto do Porto Marques da Silva, datado de 1900) da própria Sociedade e vai acumulando vários objectos encontrados na citânia de Briteiros, noutros castros próximos e nalguns mais longe, como Almeirim! À guarda do Óscar, a exposição das peças maiores é feita nas traseiras da sede que roubam o espaço do bonito claustro da Igreja de São Domingos. Digamos que aqui os objectos estão um tanto ou quanto semeados pelo claustro, quem sabe se à espera que criem raízes e dêem frutos.

O outro museu, o da Cultura Castreja, ocupa o Solar da Ponte, antiga propriedade da família Sarmento. Fica já fora de Guimarães, em São Salvador de Briteiros. Aí se aprende sobre a vida do senhor Francisco, refez-se a sua escrivaninha, o seu laboratório fotográfico e dão-se a conhecer as curiosas (muito curiosas) missivas trocadas entre Martins Sarmento e Camilo Castelo Branco (que humor o daqueles dois, quando já mais velhos que velhos à beira da morte!). Na cave, repousa a mais famosa que formosa Pedra Formosa que uns dizem ter sido retirada de um balneário, outros de um mausoléu. Em em tempo também houve a versão de fazia parte de um altar de sacrifícios de animais (história ainda hoje impingida, com fé e emoção, pelo guia do Museu de Arqueologia). A tardoz do solar, estende-se uma vista para os terrenos ainda à espera de amanho.

Dois postos de Turismo de Guimarães agoiram como é difícil tomar autocarros para chegar a este Museu. Os mesmos dois postos de Turismo de Guimarães dizem que é fácil ir do Museu até à Citânia tomando o percurso pedestre de Pequena Rota (pr2 citânia), a ter início à porta do Museu. Eu tentei, um e outro. De autocarro cheguei sem espinhas. A pé é que nem por isso.
Não se fiem que aquilo é “fácil e com desníveis pouco acentuados”, nem se fiem neste minimal mapa, o único cedido nas brochuras do Turismo de Guimarães. Consciente da porcaria de mapa que tinha para me orientar, lembrei-me de fotografar, perto do Museu, o mapa do "outdoor" que já era melhorzito. Mas lá para o fim do percurso perdi-me mesmo em pleno mato e quando me apercebi disso achei que nem valia a pena voltar para trás, certa de que o caminho por onde eu ia havia de ir dar a algum lado. Não foi nada de grave. Passado um pouco avistei uns telhados, para onde me encaminhei e encontrei um café. Vermelha como um tomate, daqueles bem maduros que até já têm umas mossas, entrei e Boa Tarde, diga-me senhor isto aqui é Briteiros? Sim éie, mas aqui à bolta hái três Freguesias de Britéiros, há Beitéiros de Sãou Salbador, Britérios de Sãnta Leocádia e Britéiros de Sánto Estébão! Ai sim, e esta não é a de São Salvador pois não? Nãoe aqui éie Santo Estébão. Pronto 'tá bem, então e diga-me lá, para Guimarães onde é que apanho o autocarro? Para Guimarãeis é mesmo nesta estrada, póde apanhar na paragem ali para trás oue ali para a frente. Qual é mais próximo? Ai é igual menina, mas na paragem da frente o bilheite debe sair mais barato.

(Assim como assim vale mais espreitar com tranquilidade garantida umas habilidades das modernices da Internet nesta visita virtual.)


A casa do conselho e
uma das vias principais da citânia

09 julho 2007

e São João e São Pedro

O Balão do João
Ribeira do Douro, Porto

Por coincidência, o Dentro do Mapa poisou no Porto a 23 de Junho e em Vila Real a 28. São as noites mais populares para cada uma destas cidades: São João e São Pedro.

À chegada ao Porto revelaram-se surpresas: não havia mais quartos no hotel onde eu tinha pensado ficar nem em dois hotéis próximos; a Avenida dos Aliados não é tão grande como se ouve na rádio ou se vê na Tê Vê; e a melhor de todas (para mim também a maior) é que estava calor e o céu azul, sem nuvens naquela cidade, carago! Depois disto seguiu-se, também com surpresa, a minha primeira vez na noite de São João.
Que outra coisa poderia estar na origem de uma festa do povo para além de uma reconhecida e sincera homenagem do homem camponês ao poderoso Sol? Claro, só as imposições da Igreja tentando disfarçar estas manifestações espontâneas e pagãs. Assim sendo, a cidade do Porto tem variadíssimas proles de representações de amor a São João. De amor divino: igrejas, capelas, altares, azulejos, retábulos, estátuas. De amor mundano: pontes, hospitais, teatros, hotéis, escolas de enfermagem, palácios. E de amor popular, com direito a festa em dia especial: alhos-porros, manjericos, erva-cidreira, cascatas joaninas, balões, fogueiras, fogo-de-artifício e martelinhos na cabeça!
Na Ribeira, enquanto se espera com um Q de religioso pelo lançamento do fogo de artíficio, todos se dispõem a apanhar com martelos ensurdecedores na tola ou alhos-porros na fronha (que cheirinho!). É uma folia carinhosa e com uma curiosa afinidade entre todos bem mais forte da qualquer-coisa que leva os alfacinhas para a rua na noite de Santo António. E, não desfazendo da companhia da Senhora Dona Humbelina (para quem Portugal podia mesmo era acabar logo ali em Rio Maior, lá para baixo já não há mais nada que não haja aqui - sim, eu já lhe tinha dito de onde vinha), aposto em como entre amigos esta noite será ainda mais mágica.

Em Vila Real os festejos são mais estranhos, começando pelo facto de terem lugar na noite de São Pedro apesar do santo padroeiro da cidade ser o Santo António, que deve ficar pior que estragado com as cerimónias que os Vila Realenses fazem em honra do seu adversário directo. (E agora ocorre-me: o que faz então com que haja uma Vila Real de Santo António em pleno Algarve, ainda para mais tendo a Nossa Senhora da Encarnação como santa padroeira??!!)
Durante uma semana, a principal avenida da cidade de Vila Real, a Carvalho Araújo, fica fechada ao trânsito automóvel e abre goela ao engarrafamento pedonal de vendedores, consumidores, mistos, neutros ou cães. É a Feira de São Pedro, em tempos conhecida pelos seus pucarinhos de barro preto de Bisalhães (objectos agora em vias de extinção, desentendendo-se os velhos artesãos com os muito modernos [des]governadores do município). Nos dias de hoje, de artesanato vê-se pouco, o que está mesmo a dar é a Feira da Cueca e é hora de comprar o dito artigo para todo o ano!
À meia-noite, na passagem para o 29, marcam-se os festejos com o chamado Arraial, ou seja: lança-se fogo de artifício, sem bailarico, sem comes nem bebes, mas ao som de qualquer coisa. E a noite passa-se teimando, entre os locais e os visitantes, sobre o significado da palavra Arraial. Em Roma sê como os Romanos!

O Arraial do Pedro
Vale do Corgo, Vila Real

07 julho 2007

Botânico e Buçaco

Avenida das Tílias, Jardim Botânico
Coimbra

O Jardim Botânico em pleno centro da cidade de Coimbra e a Mata Nacional do Luso-Buçaco a uns 30 km, são lugares de melodia bucólica a minutos dos barulhos rosnados pela cidade.
No Jardim Botânico entra quem se passeie por Coimbra. À tristeza de um espaço que me pareceu pouco amado pelos seus responsáveis (a zona da Mata não estava acessível, a da Estufa também não, o Jardim Tropical idem e o mesmo para o Jardins das Ervas Aromáticas) sobrepôs-se a gritaria de um grupo de crianças e os berros dos professores que os tentavam domar.
À Mata do Buçaco não se chega em passagem para outro lugar, é preciso seguir até ao fim do caminho. Calculo que poucos leitores se metam num autocarro público para lá chegar mas afianço-vos que pode ser feito. Do terminal rodoviário de Coimbra partem uns 4 ou 5 buses por dia que nos podem deixar (e trazer de volta) no Luso ou no Buçaco, este a 3 empinados kms do primeiro. No entanto, antes de se aventurarem na Mata convém que estejam munidos de alguma informação sendo as mais importantes de todas: no Luso há Posto de Informação mas no Buçaco não; no Posto de Informação há um Mapa da Mata mas no Buçaco é que estão os caminhos.
Eu andei na Mata sem Mapa. Não é que a Mata dê propriamente para nos perdermos lá dentro. Ainda que sejam mais de 100 hectares, com calma e com alguma atenção conseguimos ter sempre a noção da nossa posição. De qualquer das formas outra gente não se avista, placas e setas não há e assim sendo um mapa fará jeito, pelo menos para sabermos por onde andámos e por onde ainda podemos andar, para sabermos o que estamos a ver, e para sabermos quão longe estamos da saída. E, acima de tudo, com um mapa na mão sempre se descansa a alma quando só temos disponíveis um par de horas para gerir todo o passeio antes da passagem do último bus para Coimbra! (e claro que depois o bus passou atrasado, tão atrasado que pensei se não teria já passado, se eu não me enganara no horário... enfim, sozinha na paragem, mas lá cheguei a Coimbra.)

Aqui deixo uma recolha de links para os que se metam num bus, ou para os que se metam noutra coisa qualquer e não possam apanhar aberto o conveniente Posto de Informação do Luso antes de se embrenharem na Mata.

O Site Oficial da Junta de Turismo Luso-Buçaco

Um site bem bom, o Asterisco, cheio de MAPAS! (assim até parece fácil!)




Mata Nacional do Buçaco

algures lá dentro e algures lá alto (se eu soubesse por onde andei dizia-vos)
à direita podem avistar o Palace Hotel do Buçaco onde eu teria ido dormir se me tivesse perdido na mata ou se na mata eu tivesse perdido a cabeça

05 julho 2007

Casa da Livraria

Casa da Livraria e estátua de D.João III
Coimbra

Edifício construído entre 1717 e 1728 na antiga Alcáçova, entretanto Paço das Escolas, aqui se guardam religiosamente 200.000 livros, tão antigos como o séc. XVI!
Em defesa de tanto papel escrito, esta Casa está preparada com alguns pormenores. As paredes exteriores foram feitas com mais de 2 metros de espessura – não por questões anti-roubo mas sim para garantir que a humidade relativa da sala ronde sempre os 60% e temperatura os 18 e os 20º.C; os turistas estão autorizados a entrar mas só em turnos controlados e os estudiosos, para acederem a alguma obra, devem apresentar justificação por escrito e só na Biblioteca Geral poderão consultar o seu livro. O mais difícil foi, contudo, controlar a visita dos papirófagos (ou bibliófagos), insectos que não pagam bilhete nem sabem escrever e que ao conjunto deste papel chamariam um Figo e encheriam o papo até rebentarem. Contra a sua presença utilizou-se madeira de carvalho para revestir o interior da sala e nas estantes. É uma madeira demasiado densa para deixar entrar um destes insectos e lança ainda um cheiro que lhes desagrada. Mas o melhor de tudo foi a introdução de uma colónia de morcegos que à noite papa ocupantes atrevidos (creio que prefere os insectos papirófagos mas que não diz não a turistas atrevidos ou estudantes borrachos). Depois cabe para o zelador do lugar apanhar a caca que os morcegos devolvem sobre as capas com que cada noite se proteje o mobiliário da sala!
Por azar só soube desta colónia depois de lá ter estado, quando mais tarde me dediquei a ler o papel que me foi entregue aquando da visita. Se passarem, averigúem!

Esta Casa da Livraria é conhecida como Biblioteca Joanina, por ter sido mandada construir por D. João V, o Magnânimo.

Castelo Coimbrão

A primeira frente de casas, em baixo, subindo para a direita é a
Couraça de Lisboa
nome dado à frente da muralha com que se deparava quem
chegava a Coimbra vindo de Lisboa

Não precisamos (nem o devemos fazer visto tratar-se de uma senhora) de lhe perguntar a idade para saber que Coimbra é mulher de muitas Primaveras. Tem pelo menos as suficientes para ter vivido no tempo em que as cidades tinham castelos. Mas hoje, na zona alta de Coimbra não há castelo que nos ensine história - há antes uma universidade, nada mal!

O Castelo de Coimbra atava as duas pontas da muralha no seu lado Sudeste, junto à Porta do Sol, adequadamente apontada a Nascente. D. Afonso Henriques mandou aí erguer-lhe uma torre de menagem de base quadrada, seu filho D.Sancho I preferiu uma pentagonal e, uns anos depois aquando da reforma Pombalina da Universidade, o Marquês lembrou-se de mandar as torres pelos ares para erguer um Observatório Astronómico e ficar a ver estrelas. Reza a história que a cisterna, sobre a qual assentava o castelo e estas duas torres, não estava dimensionada para suportar as cargas do Observatório e vai daí, para aquele lugar, nem torre quadrada, nem torre pentagonal nem o Observatório, está lá hoje o Largo Dom Dinis mesmo antes de cairmos pelas "Escadas Monumentais" abaixo. Catrapum!

Sobre a porta de Almedina, a que foi a principal entrada na cidade, apontada a Poente, encontrei um museu-moderno a ocupar a respectiva torre. É o "Centro Interpretativo da Cidade Muralhada", um museu do município. Como anfitrião recebe-nos um apaixonado pela muralha ainda que, por ter má visão, precise de falar muito sobre nós é um encanto de senhor. Há uma maquete com o traçado da muralha por alturas do séc.XII, há um vídeo com habilidades virtuais sobre a história urbana de Coimbra, há uma exposição temporária sobre bonitos desenhos da cidade muralhada, feito por Peir Maria Baldi em 1669, ilustrando a viagem de Cosme de Médicis por Espanha e Portugal. A cereja no topo do bolo somos nós no topo da torre!

Não resisto em deixar este índice para que espreitem outros desenhos de Maria Baldi feitos durante a mesma viagem. O livro está disponível no site da Biblioteca Nacional Digital.

04 julho 2007

História riscada à beira do Mondego

Conhecia-a de nome e de vista, mas de soslaio. Apesar de estar quase certa de que em pequenita andei pelas casas do Portugal dos Pequenitos, verdade se diga que as memórias que guardo me parecem ser ideias que entretanto construí sobre imagens que, em tempos mais recentes, terei visto algures. Afinal, estive aqui antes ou não estive aqui antes?

Lá do alto, a cidade de Coimbra espreita o pachorrento Mondego. É a geometria da urbe que risca a encosta até ao rio e que agita esta paisagem. Coimbra tem cara bonita com rugas que ao sol se riscam mais fundo e que mais fundas melhor lhe ficam. Os riscos de Coimbra exibem provas da história vivida pela cidade.
Aquela ruga mais longa, que lhe atravessa a testa, é o que resta da linha da muralha que há tempos guardou a população. Coladas a ela desenrolam-se, do lado de dentro, ruas e casas com cara de quem almoçou torres de muralha. Do lado de fora as ruas cresceram depois do país conquistado, ziguezagueando sem medo pela Baixa virada a poente, salubre e cheia de vida. Rasgando uma pequena bolsa entre estes riscos e contida entre edifícios altos, a Praça de Comérico é praça capaz de engolir gente, de nos fazer ficar a olhar para si e para nós dentro dela. Para varrer o trânsito rumo ao Norte, a Rua da Sofia foi risco aberto no séc. XVI que, de tão grande e inovador tamanho, até de outros países vieram gentes para a contemplar. A Praça da República, do fim do séc. XIX, é linha que cose a colina ao modernismo que se alastra cada vezs mais. No cocuruto da cidade, o penteado é definido por uma larga quadrícula entupida de carros que separa algumas das faculdades da Universidade re-re-reformada. A ponte de Santa Clara é risco feito e refeito atravessando o Mondego sempre no mesmo lugar por todos os que governaram a cidade e desembocando no Largo que ainda hoje se chama da Portagem. Paralelo ao rio, risca-se de fresco o moderníssimo Parque Verde do Mondego, que ainda espera vir a tornar-se numa bonita ruga com vida entranhada.

Lembrei-me entretanto: sim, eu já aqui tinha estado! Veio-me à memória um caderninho de folhas A4 dobradas em A5, presas por um fiozinho de lã que se enrolava ao vinco das folhas. Era um caderninho de excursão escolar com desenhos para colorir e exercício simples precisamente sobre a visita ao Portugal do Pequenitos. Não servia de avaliação alguma mas, pelo menos, serviu para assegurar memórias uns 25 anos depois!

02 julho 2007

Resumo à chegada

Castelo de Guimarães

No centro histórico do Porto os carris apontavam ao Norte. Pararam já no Minho, no centro histórico da janota Guimarães. O ritmo abrandou... um pouco, mas em breve deixei o cinzento da pedra do Castelo de Guimarães para me deparar com o cinzento do barro de Bisalhães, na cidade de Vila Real em Trás-os-Montes.
Hoje, o destino deste Dentro do Mapa está alcançado: Lisboa.
Os "resumos" publicados lançaram espaço para os Respigos colhidos nestes 10 dias. A sair já-já.

Barro de Bisalhães
Feira de S. Pedro (ou dos Pucarinhos), Vila Real