01 novembro 2007

"O Construtor Solness"

http://www.teatro-cornucopia.pt/htmls/conteudos/EEuEZkyEZuzyogOkco.shtml

O Construtor Solness, de Henrik Ibsen, 1892
encenação de Carlos Aladro,
pelo Teatro da Cornucópia, 2007

Bem sei que as representações estão mesmo no fim e é à vontade que aposto que todos os leitores deste blog já foram espreitar os artistas da Cornucópia (parece-me que 93% deles foram juntos!). Mesmo assim, sem o propósito de convencer vivalma, sem o propósito de partilhar uma experiência única aos que não terão ido e sem a intenção de vir para aqui, mais uma vez, despejar uma carrada de elogios àqueles senhores, sinto que tenho de escrever mais um post sobre o trabalho que eles fazem ou, melhor, sobre o que sinto quando assisto ao resultado do trabalho que eles fazem.

A vida ocupada que tenho tido (nota-se!) levou-me desta vez à plateia do Teatro do Bairro Alto sem ter lido quase nada sobre a peça. Do dramaturgo, o norueguês Ibsen das barbas engraçadas, já tinha gostado muito da Casa da Boneca, pela Companhia Teatral do Chiado, que vi há uns anos (ui há 3? Já?!!).

Mas deste Construtor eu pouco mais sabia para além do que o título sugere e do que lera algures sobre uma jovem (Beatriz Batarda) que havia de aparecer na vida de Solness (Luís Miguel Cintra) para lhe cobrar uma promessa que este lhe fizera há 10 exactos anos.

Não sei se terá sido por esta ausência de pistas; se por ter esperado, durante duas semanas, que chegasse o dia da nossa ida (e não é que naquele Domingo acordei excitadíssima com o programa para a matiné).

A verdade é que logo que a peça começou eu fui por ela engolida. Engolida, engolida. Fui parar à pança daquele ogre comilão de boca grande assim que o velho e doente Knut Brovik fecha a porta da sala de trabalho para poder falar com o construtor Solness em particular. Senti-me, de repente, impelida a me levantar, a sair dali porque era só o que faltava ficar a escutar aquela conversa que ele queria privada. A tempo me lembrei que estava "apenas" na assistência e deixei-me ficar sentada quietinha, aceitando ser parte da digestão daquele ogre. Lá fui enrolada para trás e para frente,

(por um enredo realista ou fantástico? por verdades ou mentiras? por um Solness duro ou terno? um Solness Deus ou Solness suicída? por uma Hilde infantil ou sábia? por uma crítica ao confronto de gerações ou à tristeza da vida burguesa? Ai e tantos pares mais houve que nem sei se é justo deixar estes aqui escritos)

lá fui vítima daqueles sucos gástricos que me tiraram os habituais super-poderes de espectador, nunca me deixando, nunca sequer me deixando tentar, antecipar-me à acção. O raio dos sucos fizeram-me acreditar que o que estava a ver não era um enredo: era um É Mesmo A Sério.

No fim, nas vénias que aqueles artistas-mágicos faziam ao som das palmas teimosas da assistência, procurei de imediato a cara da Teresa Sobral e suspirei quando a vi sorrir e me acalmei por ela não ser só a Aline Solness, mãe sem filhos ou mulher sem bonecas? que vivia há uma dúzia de anos mais triste e mais morta e que alguém já enterrado.

Finalmente o ogre cuspiu-me. Devolveu-me à Terra mas deixou-me cair do alto e ainda demorei uma noite inteira a recuperar desta experiência brutal.

De ver e chorar por mais bilhetes que já não há!

3 comentários:

ilunga disse...

o ogre a mim cuspiu-me foi em cima, deixando-me pegajosa e paralisada com a baba da inveja; aqui deixo a penitência de não ter aceitado um convite para um lista de espera para um eventual derradeiro espectáculo.

Quico (Francisco Freire) disse...

I love Cornucópia!

paulu disse...

Olha, a Jotinha ainda faz postes!

Que bom!

Deve ter sido um problema de tamanho, ou de mau paladar: o ogre não me conseguiu engolir por inteiro. Senti o que tu sentiste naquela conversa do velho Knut Brovik com o mestre Solness. Também me apeteceu interromper a peça, e perguntar à esposa Solness se aquilo não era deveres a mais na cabeça dela (não por despeito, mas por angústia). Mas, ao mesmo tempo, havia qualquer coisa que...

No final da peça, vejo a Hilde a agitar o xaile, ou lá o que era, e a gritar, «O meu, o meu construtor!». Mas o grito saiu pífio. Senti-o pífio. Não sei se era a Hilde, ou se era a Beatriz Batarda, mas uma das duas também não estava convencida.

A Cornucópia está habituada a fazer milagres. Durante esta peça fez vários, como o de os actores descreverem o cenário que, a cada acto, era mais reduzido em coisas que se viam, mas cada vez mais cheio em coisas que imaginávamos.

Todavia sinto que faltou qualquer coisa. Um estupor de uma qualquer coisa qualquer de uma gaita de uma coisa qualquer, assim a modos que qualquer coisa, sei lá, qualquer coisa. Qualquer coisa que tivesse feito a Hilde gritar até me ensurdecer.