11 junho 2007

Marcianos no Torel

Periquitão-de-cabeça-azul
Aratinga acuticaudata

Andava meia Lisboa à espera de ver ao vivo estas aves enquanto a outra meia esperava por ver desvendado de que espécie se tratava afinal. Ok, não era tanta Lisboa assim, era mais ou menos, ou vá lá... mais para o menos que para o mais, mas com empenho e decisão!

Devo anteceder o relato explicando que estas dúvidas foram há tempo levantadas numas conversas entre amigos e, depois, alinhavadas aqui no meandros dos blogues, com especial afinco nos comentários a este post do nosso Bzz. O que seriam aqueles seres verdes que se avistavam no Jardim do Torel, durante o voo, arrastando cauda comprida e em chinfrineira de despique? Eu por mim arrisco já: marcianos, só podem!

Ontem, finalmente, armámo-nos de máquina fotográfica e fomos à caça para o Jardim do Torel, aqui em Lisboa, ao lado do conhecido Elevador do Lavra. Do miradouro no alto do monte de Santana, lançam-se vistas sobre o monte de São Roque. Atravessando a Avenida da Liberdade, espreita-se desde o Tejo até à bandeira portuguesa da Feira do Livro no topo do Parque Eduardo VII, e isto passando pelo Chiado, pela estação de comboios do Rossio, pelas obras São Pedro de Alcântara que concorrem com as de Santa Engrácia e pela a mancha verde do Jardim Botânico, sempre com o olhar intersectando todas aquelas as ruas que caem colina abaixo.
O Jardim do Torel foi construído no início dos anos 30, pela Câmara Municipal de Lisboa, sobre os doados terrenos da que outrora fora a quinta do desembargador Francisco Xavier da Cunha Thorel, com o seu palacete mandado construir no início do séc. XVIII. No ano 2000, o jardim sofreu uma remodelação profunda. Parece que as águas da chuva ficavam retidas nos terrenos e os muros de contenção começavam a queixar-se do esforço.
Não conheci o jardim de antes, mas hoje é um lugar muito bom para se estar, observando o frenesim urbano à sombra de palmeiras e ao som do assobio dos melros. Mais ou menos como comer um gelado com molho de chocolate quente ou trincar uma torrada depois de um quadradinho de chocolate.

Mas isto vinha tudo a propósito dos marcianos que suspeitávamos terem erguido tenda no Torel. Nos dois guias de campo, previamente consultados, havia apenas uma sugestão: o Psittacula krameri. Assim sendo, as probabilidades de se tratarem de Periquitos-rabijunco, também conhecidos por Periquitos-de-colar (ambos nomes portugueses para Psittacula krameri), eram tantas quantas as probabilidades que eu tenho em não acertar no Euromilhões.
E foi com esta convicção que nos sentámos à espera dos vivos que sempre aparecem, numa conversa como as cerejas quando zás-tráz!, lá iam os suspeitos, voando sobre as nossas cabeças, entre as copas das árvores, até que mergulharam rumo à Liberdade para… êh-hop! logo ascenderem de regresso, pousando bem a jeito de uma espreitadela e uma disparadela.

Mas… periquitos-de-colar? Aqueles? Como? Só se tivessem deixado os oiros em casa! E só se tivessem pintado os bicos com batom amarelo, posto rímel branco para realçar o olhar e aparado as penas da cauda, afinal sempre é mais prático. O que seriam então estes marcianos-não-identificados? Será o Torel é mesmo um posto estratégico para Marte nos atacar?
Com grande habilidade, forte instinto, persuasão a roçar o doentio e com as graças divinas da Internet, lá descobri que estes marcianos estão disfarçados de periquitões-de-cabeça-azul, Aratinga acuticaudata - aves exóticas originárias do continente sul-americano mas observadas em Portugal e com direito a nome na lista das aves exóticas observadas em liberdade em Portugal continental, de Rafael Matias. Já que são apreciadores de ambientes tropicais, atrevo-me a dizer que este casal se terá encantado pelas palmeiras do Torel, comendo sementes, frutos e flores. Contudo não se registam reproduções no território nacional e em 1998 parece que apenas haviam sido avistados 7 exemplares (dados segundo esta bela página de nuestro hermanos).

Desvendado o mistério da identidade destes seres verdes que sobrevoam o Torel fica no entanto um pouco de frustração sobre a parca informação disponível relativa a vida destes bicharocos em terras lusitanas. Ok, são raros, compreende-se mas eu assim reforço mas é a minha suspeita: estes são mesmo marcianos disfarçados e atenção porque alguma coisa andam a preparar!

Probabilidades contrariadas talvez agora seja boa altura para eu começar a apostar no Euromilhões.

07 junho 2007

Ovelhas Montesas

(precisa de som, a dar para o alto)

Primeiro era o assobio. Depois do longe chegou o sonido de uns badalos e para o fim não se ouvia outra coisa para além daqueles chocalhos. Quais melros quais chamarizes quais quês! Aquilo eram as feras que vinham aí, vinham chegando e vinham rápido, em corrida doida que se alongava e aproximava com um tom alarmante. Devíamos fugir? Ai, mas então para onde? Mas onde estavam elas? De onde vinham? Viriam danadas? De olhos semicerrados, mão de índio sobre a testa, olhava-se. Nada. Não se avistavam os bichos, que raio?! Esconderijos? Saídas de emergência? Escapatórias? Nada, só os chocalhos continuados e berrando cada vez mais alto! Um destino trágico? Iriam as bestas assomar-se sobre a caçada que, rígida pelo susto, se deixaria vencer antes de ter sequer entrado na batalha? Não! Ali-ali, é o monte que se está a mexer, ali! Mas não se mexiam as árvores, nem os calhaus nem os arbustos. Mexia-se o próprio chão. Como? Era uma onda de ovelhas que vinha descendo o monte ao sprint! Pareceu-me que algumas se tinham deixado enrolar e rebolavam colina abaixo, outras, ainda lãzudas, espalhavam caracóis ao vento e abriam a boca comendo o fresco da Primavera. As primeiras que chegaram cá a baixo, como onda que rebenta na areia, travavam de rabo deixando-se escorregar no chão, bêbadas e excitadas, perdidas em risos balidos, uma ou outra a chorar de rir agarrando-se à barriga!

Bom, na verdade dali eu mal conseguia ver os ovinos. Via sim, mas melhor ouvia, um rebanho de ovelhas descendo o monte, em correria de miúdos, como as que fazíamos nós em dias de festa de anos pelas barreiras, ainda nos tempos da escola primária - e que, claro, acabavam em curativos aos joelhos e raspanetes pelas nódoas pregadas nos vestidos novos.

Vê-se mais mexer a câmara do que se vêem as ovelhas a resvalar pelo monte. Enfim, é sempre útil um pouco de imaginação!

06 junho 2007

Por São Mamede

26.05.07, Vale de Carvão, PortalegreO Parque Natural da Serra de São Mamede foi criado em 1989. Arruma-se na ponta norte do Alentejo, no distrito de Portalegre, junto a Espanha. Marvão, Castelo de Vide e Arronches são os outros três municípios integrados no limite do Parque.
Em voo de pássaro, a alentejana Serra de São Mamede destoa com bom-gosto do redondo relevo do resto da região. É da altaneira Marvão que se diz ser o lugar onde se observar ver as aves vistas de cima! E é nesta serra que está o ponto mais alto de Portugal, a sul do Tejo. Nesta serra dividem-se as bacias hidrográficas do Tejo da do Guadiana: rio que venha de cima rumo a Oeste casará com o Tejo, os que vier de Este ruma a sul com o Guadiana fará união. Há aqui duas influências climáticas: Atlântico (frio e húmido nas vertentes Noroeste) e Mediterrânico (a verdadeira brasa alentejana nas vertentes Sudoeste). Como tantas outras serras, São Mamede funciona como uma barreira às leis dos ares e proporciona a condensação de humidade, logo facilita existência de chuvas e humidade que refrescando a zona e cativando fauna, flora e malta a passear.
E claro que por aquelas terras, uma vez por outra, lá nos espantamos com fálicas exibições megalíticas com uns cinco mil anos de presença.

De novo a pé, desta vez uma jornada breve de cerca de 12 km, ao início sob o olhar atento da altaneira cidade de Marvão, depois por caminhos estreitados por muros baixos de pedras e por carvalhos antigos para no fim os olhos se perderem sobre o vale. Partindo e chegando a Galegos, o passeio deu direito à travessia da ribeira de Galegos com marmitas gigantes (zonas do leito rochoso da ribeira, moldadas por pancadas dos calhaus que descem em turbilhão as águas); caminhou-se por uma respeitosa calçada de lajego seiscentista; tomou-se um café em terras de Espanha que afinal falavam português; subiu-se ao Castro da Crença, hoje em dia submisso ao domínio de uma vegetação maior que eu - tão submisso que Castro onde estás? piquenicou-se sobre os granitos do Rio Sever, à sombras das falsas mimosas, antes da travessia do Vale de Carvão para atingir a Ponte Velha e finalmente regressar a Galegos. (O 1ºlugar feminino recebeu uma bateria de máquina digital que se julgava perdida há meses! – cansou-se, o objecto, de brincar às escondidas.) E isto tudo reencontrando dois ou três grupos de turistas estrangeiros (e atenção que eram estrangeiros mas não-espanhóis!) que faziam o mesmo percurso. Quem sabe se talvez um dia isto das caminhadas pegue moda em Portugal e tenhamos de as fazer fora dos fins-de-semana e dias feriados!

04 junho 2007

Salada

À esquina do Mercado Municipal, 11:27 de Sábado, 2 de Junho
O Pezinho de Salsa:
Parado de lado, alinhando com preciosidade a sua sombra com a sombra do candeeiro. Vê as horas. Camiseiro branco em balão entalado em calças de cintura bem subida, bainhas curtas a roçar o tornozelo, meia branca ora pois, sapato brilhante sempre. Cabelo escuro lambido à cabeça, testa larga, queixo fino, nariz aquilino, buço ralo tomara que encrespe e coragem esquecida em casa.
O Molho de Brócolos:
Encostado à parede do mercado, uma perna dobrada com pé poisado nas cornucópias no painel de azulejos. Vê as horas. Golas eriçadas da camisa só meio apertada a arejar os cabelos do peito, calças de ganga rotas nos joelhos, bainhas arregaçadas, all star’s às cores da bandeira americana. Franja farta caída sobre testa desviando-se a deixar que os olhos espreitem, barba picada na pele morena, mãos no bolsos e assobio no canto da boca.
A Ervilha-de-cheiro:
Saindo do mercado, passos curtos, traz compras num carrinho de rodas que chiam ao peso cruel. Atrasada. Brancos folhos apaziguam maiores gorduras, faixa larga em tafetá verde faz a vez de cintura, botina de salto curto onde se tenta equilibrar este conjunto roliço. Pele mármore transpirando corando, caracóis cobre colados à face, sardas disputando nariz curto e paciência em fim de vida.


À passagem da menina Ervilha-de-cheiro, o Pezinho de Salsa compõe-se, o Molho de Brócolos emproa-se.
Enche-se de coragem o Pezinho de Salsa (não o faz por expedição nem decisão, mas sim porque já o tentara vai para mais de uma dúzia de vezes): dá três passos, inclina o corpo esguio, estica-lhe uma mão que deixa poisada no ar e oferece-lhe a sua ajuda A Menina permita-me a gentileza…?
Mas soltando-se da parede vem já em passo largo o Molho de Brócolos Oh boa, oh giraça, queres homem que te ajude ou chega-te esse manjerico?
A Ervilha-de-cheiro, que corava por timidez, faz um compasso de espera e cora agora de raiva. De sorriso rematado por covinhas nas bochechas entrega a pega do carrinho ao Pezinho de Salsa. Depois cerra os olhos e, do seu arredondado bom comportamento, vira-se para o Molho de Brócolos e Saíste-me cá um cabeça de nabo!

Ora, já se sabe, se há coisa que um Molho de Brócolos não aguenta é ser chamado de cabeça de nabo e, antes de se ver a ficar com um grande melão, o Molho de Brócolos armou-se da sua melhor virtude e lançou-se ao Pezinho de Salsa, insultando-o Oh seu grandessíssimo cara de Grão-de-Bico!
Estava assim o caldo entornado. Enrolaram-se os três à bulha numa espiral de ofensas e ferimentos às suas almas verdes e viçosas. Três minutos de loucura, de farpas e vapores, de gritos e gemidos, de tabefes e puxões. E lá acabaram os três esparramados no chão, arfando descompassados, de ar murcho e amassados, numa salada misturada com os estilhaços lançados pelo carrinho das compras.

À sua frente reunia-se já uma série gente arrumada numa moldura à contra luz, de contornos equilibrados, excepto ali. Ali, na quase extremidade da moldura, destacava-se uma elegante Cenoura-dos-olhos-bonitos: perna alta tenra, pele bronzeada florescente, pestanas alongadas pisca-a-pisca.
Os três repararam nela, os três se levantaram e se compuseram sacudindo folhas, cascas, flores, pevides, ramos. O Pezinho de Salsa tinha ganho coragem para o resto da vida e limpava a testa com a manga e camisa; o Molho de Brócolos safara-se de apanhar um melão, até ver, e afiava as golas da camisa; a Ervilha-de-cheiro corava de cansaço e enxotava os folhos. Viraram-se todos para a Cenoura-dos-olhos-bonitos.
Os dois primeiros terão pensado que ora ali estava um bom partido para tentarem a sua sorte, e atreveram-se a avançar. A Ervilha-de-cheiro sabia bem quem era aquela e deixou-se ficar mas logo a Cenoura-dos-olhos-bonitos Ai Ludovina o que foi que arranjaste desta vez? Vá, para a esquadra os três prestar declarações! Andor, à minha frente, antes que me façam a cabeça em picles.

31 maio 2007

EN 246-1

26.05.07, Marvão, PortalegreEste é a nossa passagem pelo Túnel dos Freixos ali no princípio da Estrada Nacional 246-1, entre Marvão e Castelo de Vide - Portalegre. Quem passa, se não vai a dormir, não esquece!
Os freixos (Fraxinus angustifolia - espreitado aqui) dão idade à estrada, dão juízo aos condutores que temem espetar-se neles, e dão medo aos co-pilotos que acabam por recorrer àquele travão oco debaixo do seu pé direito sempre que calha cruzarem-se com outro carro. Mas também nos refrescam com a sombra, e fazem-nos ver a paisagem às tiras e ouvir o som aos soluços.

No PDM do Município de Marvão, este troço da EN 246-1 é o nº.15 classificado na lista do Património arquitectónico e arqueológico. Li que entretanto a alameda dos freixos tinha sido desclassificada (?) mas não encontrei provas da destituição das árvores e esta referência cheirava demasiado a política.

Ao lado desta correnteza de árvores, no lado que fica na base da proeminência onde se instala a muralhada cidade de Marvão, lá nos cruzámos o que, em pleno Verão de há dois anos, era um fresco campo de golfe. Era então um oásis de verde na secura do Alentejo, que até feria os olhos a quem chegava vindo da palha seca e amarela dos campos e dos montes. Era um berro agudo na calma alentejana cantada pelas cigarras. Era uma nódoa de esparregado radioactivo numa toalha de tons pastel.
Este fim-de-semana, quando por lá voltámos a passar, por entre os troncos dos freixos revimos o campo de golfe. Estava murcho, triste, de barba por fazer, cabelo desgrenhado e a suspirar ressequido. Tinha até mau hálito. E ainda por entre os troncos dos freixos, fomos a tempo de ver, ao fundo, frescas-fresquinhas e a rebentar com a força de uma Primavera que todo o ano lhes deve cobrir o tecto, mais das mesmas urbanizações volumosas, quadradonas e a perfurar a terra sem dó nem piedade. Serão filhas ou netas ou bisnetas das que víramos também há dois anos. Mas ai que brotam como erva daninha!

29 maio 2007

"Shortbus"

realizado por John Cameron Mitchell
2006

A ideia de um filme cheio-cheio de sexo e sexos a bailarem às claras, sem planos filmados de esguelha nem fades estratégicos ou violinos chorosos e que ainda por cima partilhe salas com os blockbuster é, apostaria, uma ideia muitos e de há muito.

É certo que a história de Shortbus tem algumas coisas de estilo convencional, e que já se viram melhor exploradas noutras situações do cinema que está na moda: tem histórias de personagens com vidas muito maradas e que teimam em cruzarem-se umas com as outras; tem gente americana deprimida e infeliz com a sua vida; tem as twin towers; tem a frustração de uma mulher que não pertence ao talgrupo e tem um grand finale com uma festa de cantoria folclórica. Mas estas vidas, esta gente, esta mulher, ou esta banda, que já andaram noutros lados, aqui despem-se de preconceitos e de roupas, sem despropósitos e sem escândalos.
Talvez Shortbus seja um princípio para que, no cinema, o sexo apareça com mais desígnio e deixe de se resumir às lamechices da treta que escondem pudores fora-do-prazo.

Este filme foi um belo remate para um dia onde coincidências acumuladas fizeram saltar a rolha de um espumante rosé.

(carregar na foto para ver onde se exibe este filme)

28 maio 2007

Afoito Berlioz

27.05.07, Coliseu dos Recreios, LisboaEla andava intrigada com esta questão já há coisa de duas ou três semanas. Na verdade, aqueles bonitos sons podiam até ter aparecido antes, não sabia precisar ao certo porque no início mal dava por eles. Depois prestou-lhes alguma atenção mas a cada noite que passava o agrado crescia e agora o gosto era maior, agora ela encantava-se com aquilo. Ficava parada estendida no chão até sentir, por todo o seu corpo, a vibração dos suspiros chegados naquele som, depois esticava ora o pescoço ora a cauda que ondulavam ao ritmo da música e, no final, deixava-se enrolar pelo prazer de um calor sobre as suas escamas. Era um prazer que desconhecia poder chegar-lhe assim, tão bravio, vindo do ar, no meio do escuro.
Ah, mas esta noite ela vai atrever-se. Vai. Vai sair daquela nesga onde se recolhe mal o sol se põe. Vai ver que príncipe é afinal capaz de tal habilidade. Vai talvez com ele casar ou, se não puder, de amor por ele vai morrer.

E seu dito, seu feito, a lagartixa Afoita Tixa subiu esta noite ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, para assistir a uma sinfonia fantástica de Berlioz, a terceira peça do programa apresentado pela Orquestra Sinfónica de Londres.
Depois da emoção do concerto em sol para um singelo piano de Ravel, interpretado por Javier Perianes, que lhe provocou uma série de tremeliques, foi só graças ao intervalo que recuperou a tempo de se ir colocar sobre o estrado do maestro. Antes do começo ainda um violinista a enxotou de lá com o seu arco, a meio ainda ela se afastou para melhor ver aquele príncipe-artista condutor, em pleno crescendo da sinfonia ainda ela se atreveu a subir pela perna de um violoncelista (que sem perder a postura, e com alguma doçura, a sacudiu logo que pode). Da última vez que a vi tinha, depois de outra tentativa frustrada em subir para o colo de um músico, parado no degrau das harpas. Talvez dali conseguisse ver bem o seu príncipe-artista, o seu animal mímico de batuta em punho. Talvez o maestro Daniel Harding tenha dedicado o encore à Afoita Tixa, a tenha vindo cumprimentar depois e quem sabe se lhe deu um beijo desencantador e a transformou numa linda princesa, com quem casou e com que já vive feliz há muito e muito anos.

Ora imagine então quem quiser as condições em que vivia a Afoita Tixa nas nesgas bolorentas do palco do Coliseu dos Recreios. Imagine quem quiser o que esconde aquela alcatifa vermelha descolada nas pontas, o que está sob aquele chão de madeira pintado a tinta gasta ou atrás do aglomerado de madeira riscada a esfarelar. E imaginem também as conversas da noite entre os músicos e as conversas que vão levar para casa (e lembro-me agora das que trouxemos de África).
Eu calculo, e ponho as minhas mãos no lume, em como a Afoita Tixa aprecia a sala do Coliseu e a música que nela se faz com mais gosto e estima do que os engenheiros que desta sala deviam cuidar.

20 maio 2007

Carochinha aos quadradinhos

Dobra a esquina um carocha cor-de-rosa. Pára em frente ao toldo que cobre a passadeira vermelha estendida sobre o passeio, desde a entrada do restaurante. Abre-se a porta, sai o chofér de cartola e laço. Contorna o carocha cor-de-rosa. Abre a porta de trás. Uma perninha muito fininha, de colant de mousse preta e salto alto carmim, espreita do banco e puxa atrás de si o corpo mimoso da Carochinha num vestido cor-de-rosa de pintas brancas, folhos ondulados na bainha e nas alças e cintura anelar.

A Carochinha tinha encontrado um notita de 500 euros bem enroladinha entalada numa tábua do seu parquet flutuante. Embonitara-se na clínica de estética ao fundo da rua, fora ao multibanco autorizar saldo para conta do telemóvel, ligara para alguns amigos e agora vinha jantar com o João Ratão, que apesar do nome era apenas um ratinho franzino com pouco ou nenhum ginásio mas o único disponível para esta noite combinada assim, tão ao momento. O burro José estava a jogar consola, ao gato Pingado surgira de urgência um enterro, o cavalo Quim estava em provas de saltos em Estremoz, o porco Tô não respondera, o cão Plexo estava com uma depressão, e o galo Farto de ressaca. Venha o Ratão então.

O restaurante era um mimo. Imaginem em tons de rosa: as paredes com frescos a imitar mármore, as toalhas de mesa em cetim debruado, as cadeiras de costas altas forradas de algodão pele-de-pêssego, as estrelinhas que brilhavam coladas no tecto. Também era cor-de-rosa a luz íntima das velas, era rosa a água leitosa da fonte central que caía para um tanque com peixinhos cor-de-rosa, de rosa se perfumava o ar, e até a música de fundo soava a cor-de-rosa.

Ofuscada pelo ambiente onírico, a Carochinha mal deu pelo João Ratão pardacento que dela se aproximou a medo. Mas foi embrulhados naquele ambiente que lhes veio ao pensamento Oh, como está linda! e Olha, até parece que está mais corpulento! Em coro disseram: há quanto tempo! Como estás? Principiada a sintonia, sentaram-se os personagens à mesa e avançaram pedindo, de novo em uníssono, um consumê de beterraba com aipo e amêndoa pilada. Trocaram sorrisos e, sem que alguma vez o chegassem a saber, pensaram juntos Ai, tanto em comum, em tão pouco tempo… Depois olharam-se olhos nos olhos e esperaram ver surgir faíscas. Mas nada. Esperaram calados. Nada. E uma mesma ideia lhes ocupou a mente Oh não, afinal nada em comum…
Ainda antes da chegada do petisco, o João Ratão pediu licença, levantou-se e foi ao xixi dos nervosos. Passando pelo corredor, o seu nariz agarrou o fio de um cheiro que o puxou até à cozinha. Lá dentro ninguém. Fervia um tacho. E já se sabe, acabou o rato cozido no caldo. Gritaram os cozinheiros, chamaram-se os bombeiros, e logo chegou o INEM com uma viatura super-bem-equipada que pescou o João Ratão, o reanimou e o levou para as urgências com um prognóstico tranquilizador.
Perante tudo isto, a Carochinha viu-se quase viúva antes de ser casada. Ai a minha vida meto-me sempre em histórias da carochinha. Tenho é de me ver livre deste universo limitado ao cor-de-rosa romântico e barato onde com 500 euros se faz uma limpeza de pele, se aluga um carro e se quer casar.

Olhou à volta. Nada para além daquele cor-de-rosa que já começava a ser demais. Fechou os olhos. Abriu os olhos. Outra vez nada. Outra vez fechou os olhos, agora com força e concentrada. Outra vez abriu os olhos. O restaurante tinha ganho uma cor castanho-esverdeado. O tecido de cetim deu lugar a uma lona grossa estampada de camuflado militar, as cadeiras eram agora bancos de pau com pingos de tinta, na fonte duas piranhas algum lodo e qualquer coisa podre a boiar. Cheirava a cigarrilhas e a luz deixava ver o fumo da sala.
Sentado solitário na mesa do fundo, um incrível homem musculado de tez verde. Só vestia uns calções de baínhas rasgadas.A Carochinha achou que não era tarde nem cedo. Chegou-se a ele, esticou-lhe a mão e disse Sou a Carochinha, muito bonita e engraçadinha, Eu sou Dr. Bruce Banner, Hulk para os amigos. És nova aqui! Bem-vinda sejas às histórias aos quadradinhos!

A Carochinha sentou-se e deixou tombar o seu pescoço-caule-de-flor sobre o deltóide de Hulk que lhe fez uma festa no rosto com o dedo indicador. A Carochinha estava decidida, agora ia tentar a sua sorte histórias aos quadradinhos.

18 maio 2007

5ª.feira de Espiga, S.G. sem espinhas

17.05.07 No Maria Matos, até Domingo 20, Sérgio Godinho (em) ligação directa. Se recomendo? Corram já à bilheteira, leiam o post depois.

A minha mãe deve-se ter fartado de ouvir o Godinho enquanto estava grávida de mim, depois deve-me ter embalado ao som do Godinho e depois ainda, quando me achou crescidinha, deu-me para a mão o LP Duplo Era uma vez um rapaz e ensinou-me a mexer no gira-discos, com jeitinho olha que risca. Hoje em dia partilhamos entre nós a custódia dos CD's (se não todos, quase todos) do SG, se grandes bulhas mas com alguma negociação.

A experiência que é assistir a cada concerto do Godinho e seus novos Godões tem um quê do que me parecer ser ao que se chama milagre. Ontem ouviram-se as prometidas 25 músicas, umas quantas do novo álbum Ligação Directa, outras quantas sem o serem.

Mas de um músico com tantos anos de carreira e para este meu ouvido viciado em Godinho, de “antigo” ali nada se ouviu. Tudo me soou a novo! Tudo batido em claras, numa única e impecável surpresa que só a sábia generosidade do Godinho pode dar às suas músicas quando as deixa serem inspiradas pelo dom do Nuno Rafael e o trabalho daquela empenhada equipa. Músicas antigas, mais antigas do que eu e daquelas que conheci antes mesmo de nascer, foram postas a demolhar num caldeirão do elixir da juventude e ficaram, outra vez, muito bem neste seu novo visual. Num repertório com mais intervenção do que romance, com um gomo de tangerina ritmado por um teclado numa antiga máquina de escrever, com um homem fantasma apresentado por coro alentejano, com um relógio de cuco na casa onde alguém vai dar devagar.

E todos os créditos para: Nuno Rafael, pensador, nas guitarras, toca também máquina de escrever; Miguel Fevereiro em ainda mais guitarras; João Cabrita, um resistente dos habituais três assessores de Godinho, nos sopros e alguns coros; João Cardoso no piano, teclados e muito animação; Sara Côrte-Real no coro, teclado, percussão e a afiar a espada do velho samurai; Nuno Espírito Santo, o mais alto, fica no baixo; Sérgio Nascimento, um animal da percussão, numa bateria híbrida de batida portuguesa traz puros o seco som do tambor e o solto som da pandeireta; Godinho na batuta, sempre em plena ascensão!

ui, foto não autorizada

16 maio 2007

Freire nada mal

Estranha semana esta com o lançamento de dois livros por dois autores tão especiais.
Desta vez são as Memórias, de João Freire: Pessoa comum no seu tempo, das Edições Afrontamento (com página da net actualizada pela última vez a 12.02.2007, ou seja ainda não há links para esta obra e não me apetece deixar aqui o link para a Editora). Aconteceu no ISCTE, na terça dia 15.
Um título à primeira vista paradoxal. Não se pode tratar de uma pessoa comum ou as estantes das livrarias estariam à data cheias de biografias de portugueses.
É certo que a etiqueta de herói, de pessoa não-comum, flutua ao sabor do contexto em que se envolve cada geração: Aristóteles herói pensador, Infante Dom Henriques herói navegador, Einstein herói físico, Freire herói idealista. Mas como serão escritas as Memórias dos que hoje têm 20 ou 30 anos? Vamos ser heróis de quê? Parece-me que a nossa geração não vai ser herói de coisa alguma ("coisa" das que valham a pena). Será que vamos eternamente sentir que desiludimos os heróis idealistas.
(ah! teremos as memórias do Cadilhe!)