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16 julho 2007

A solo

Margem do Rio Febras
São Salvador de Briteiros, Guimarães

Tantos dias em lugares outros que não os meus, só eu sem outro ou outros meus e sem ter assim estado vez alguma. Deve portanto ter sido natural (apesar de ter sido coisa que me bateu à porta sem avisar) aquele período do começo da viagem em que estranhei o ritmo e me senti a esborrachar para me moldar a este novo estilo de Estar. Dá luta aturarmo-nos e cansa termos de tomar conta de nós próprios a cada minuto do dia, sobretudo em lugares desconhecidos com os seus hábitos próprios que sempre se demoram a revelar. Mas com calma lá vamos. Depois de apanharmos a passada apoderamo-nos dos lugares de uma forma ímpar, com a força e a fragilidade de sermos só um. E com o passar do tempo ficamos com a consciência bem lembrada de que para além de só um, somos mesmo, e apenas, só mais um.
Prestes a encontrar-me com gente amiga (em Vila Real) assomou-se uma saudade de ver chegar ao fim esta condição solitária, mas entretanto confortei-me pensando que a próxima é: assim que eu quiser! – ou será que senti esta saudade apenas por saber que estavam ali à frente uns braços abertos para me receber?

À partida de Lisboa trazia na mochila a pergunta: Para que me estou eu a meter nisto? Lá para meio caminho, lembrei-me dela e fui ver se já estava acompanhada de uma resposta. Nem uma resposta, nem sequer a pergunta. Mas no seu lugar encontrei outra interrogação: Como podia eu não ter vindo?

Tecto de uma bela massa à camponês
Cervejaria Martins, Guimarães

15 julho 2007

Iindo eu, indo eu...



Vaca-loira
Lucanus cervus

atentem nas asas papel-de-seda amarela
mal escondidas na ponta do corpo

A caminho da citânia de Briteiros, tendo iniciado o caminho há pouco e portanto cheia de fé e de genica, resolvi tomar um pequeno desvio de 800+800 metros para ir até Portuguediz. Esperava pelo menos desvendar o mistério de um nome daqueles no meio do mato.

Passei uma bonita ponte com-jeitinho-não-vá-ela-cair, feita só de pedras que se comprimiam entre as margens do Rio Febras (quem preferir pode tratá-lo pelo seu outro nome, Rio Várzea). Tentei adivinhar por onde estaria o caminho mas as ervas dominavam. Ajudaram-me umas fitas plásticas de vermelho e brancas, resíduos de uma prova de motas todo-o-terreno. De seguida meti um pé numa cova larga, afundei-me e as ervas ficaram num repente mais altas do que eu. Quando voltei a subir o buraco, as ervas continuavam a tapar-me a vista. Estiquei-me e nada mais que ervas. Uns passos à frente e para além das ervas: silvas! Levei a mão à cintura, apalpei um lado e depois outro… azar! não tinha trazido a catana. E a curiosidade sobre o que diz Portuguediz passou-me logo de moda. Voltei a descer orientada pelas fitas vermelhas e brancas, voltei a passar a ponte só de pedra só e passados uns metros dei de caras com um g’anda touro. Atravessava com tal ligeireza o caminho atapetado de folhas fofas de carvalho que algumas até pareciam empurrá-lo para cima. Era um escaravelhão de todo o tamanho com uma tal tenaz na fuça que mais fazia lembrar um verdadeiro par de cornos.

Em Portugal chamamos-lhe Vaca-Loira. Noutros países da Europa lembraram-se de Veado Escaravelho (Stag beetle) Veado Voador (Cerf-volant ou Ciervo Volante), Touro, ou Veado, dos Carvalhos (na Escandinávia), e como alternativa Galega um melodioso Escornaboi.
Nós, os portugueses, cambiámos o veado pela vaca e muito bem o fizemos porque, para além de não termos por cá grande fartura de veados, temos a típica vaca da região, a barrosã, com um par deles tal-qual estes. Mas porque raio fomos nós chamar Loira a este escaravelho-vaca é que ainda não consegui entender.

O Lucanus cervus é mesmo um dos maiores escaravelhos da Europa e considerado o maior de Portugal. Tão grande que alguns machos chegam aos 8cm. Este que pude observar era, como vos disse, um touro! Sem querer exagerar (e porque para além da catana também não levava régua) diria que tinha pelo menos 7 cm! Habitam em matos e florestas e são uns ecológicos trabalhadores na reciclagem de árvores mortas.

Apesar de ser um bicho inconfundível, o Lucanus cervus leva uma vida afastada dos paparazzi e por isso poucas certezas há a seu respeito. Encontrei algumas disparidades em factos que deveriam ser concretos (pesos, medidas, anos) e assim sendo preferi, para fazer este post, usar os valores apresentados no Plano Sectorial da Rede Natura 2000, pelo INC em Janeiro de 2006 (ver referência do site no fim do post) ainda que não sejam resultado de estudos levados a cabo exclusivamente em Portugal.

Não sendo uma raridade este bichos são preciosos e é necessária alguma sorte para os ver assim, nesta fugaz fase da sua vida, armados de capacete cornudo. É que a Vaca-Loira tem um ciclo de vida especialmente desproporcionado e longo.
Filha de ovos entalados em frestas de troncos, cresce larva alimentando-se do que restará da árvore. São entre 1 a 7 anos de pura engorda. Num fim de Verão, a larva enterra-se e envolve-se num casulo. A pupa demora 6 semanas a transformar-se, mas fica escondida à espera do calor. Entre o fim de Maio e o Agosto de um mesmo ano, estes adultos depois de tanto terem marinarado, dão o tudo por tudo para se reproduzirem. Ao macho cumpre voar (aqui está uma boa foto do Vaca-Loira de asas abertas) em procura da fêmea e fá-lo geralmente ao fim do dia. Alimentam-se de sumo fruta (ou talvez de nada). Ambos têm pressa, muita pressa, porque passados estes 3 meses, e tendo ou não cumprido a sua incumbência, morrerão.
As hastes do macho servem para lutar contra outros machos. Matar ou morrer são acontecimentos possíveis mas muitas vezes a luta apenas serve para tirar o mais fraco do caminho (tronco abaixo, por exemplo). São também usadas para reter a fêmea durante o acto sexual (cuidado com os menores, papás!). As hastes da fêmea, com pouco destaque e aparentemente inofensivas, servem para morder e são venenosas.

Baralha-me este estilo de vida "descartável", como uma larva tantos anos cega que se transforma na mais bonita e alegre das crisálidas para morrer no instante de um sopro.
Acho que sei da existência de umas pessoas assim. Quer dizer, nenhum hominídeo aspira a rematar a sua testa com umas hastes destas, mas em vez disso alguns compram carros ou pagam músculos no ginásio para cativarem um parceiro sexual. Tal Vaca-Loira vivem só para isto durante o breve instante em que se esgota o fósforo da sua vida.
Despeço-me espantada como a natureza se deixa consumir assim, e enjoada de olhar para o cleóptero e suas antecessoras larvas.

O Lucanus cervus está incluído no anexo II da Directiva “Habitats” que agrupa o que foi considerado “ameaçado no território da União Europeia”.

Para este post recorri a vários sites. Os preferidos foram: ICN,Young People's Trust for the Environment,e o melhor para o fim, até porque depois descobrirão que este tem alma portuguesa! com destaque merecido para a criativa demonstração do ciclo de vida do Lucanus cervus.





Tão pintadinhas de fresco que ainda falta limpar as ervas
(pois, e fazer um mapa)

12 julho 2007

Citânia de Briteiros

Citânia de Briteiros

Poupo a vergonha de nunca ter ouvido falar deste lugar pelo facto de, entre a meia dúzia de gente a quem entretanto falei dele, apenas a minha avó o conhecer e ter mesmo lá estado. Na Freguesia de Briteiros de São Salvador, 15 km Norte de Guimarães, conserva-se no topo do monte de São Romão um bonito castro datado da Proto-História. Chama-se citânia de Briteiros e dela se diz ser uma das mais “expressivas” entre todos os castros característicos do Noroeste da Península Ibérica. Alguns estudiosos do lugar crêem que seja uma das mais antigas, com uma ocupação a remontar ao Neolítico Final (parece-me que uns 4mil anos a.C).

(Num instante esclareço que: as citânias são castros grandes, estabelecidos antes da ocupação romana; a Proto-História é um pomposo nome dado ao período da História que fica entre a Pré-História e a Antiguidade Clássica, arrumado desde o séc.XI a.C até o séc.I a.C. incluindo as Idades do Bronze e do Ferro).

Fica-se logo de olhos vidrados naquela paisagem sulcada a pequenos muros rectos ou circulares onde se sente que andou gente. Para além das vias bem desenhadas, algumas delas com um pequeno caneiro lateral, espantem-se com as habitações circulares e as suas antecâmaras, com a enorme Casa do Conselho (foto do fundo) com banquinho incluído, com o Balneário (em palavras de hoje chamar-lhe-íamos uma sauna, com banho de vapor quente e de seguida água fria) ou com as duas casas recuperadas por Francisco Sarmento (ler à frente) mas nem por isso do seu agrado. De estranhar será ver uma pequena capela cristã com um cemitério, que se pensam serem datados do séc. X ou XI.


Em 1875 e por iniciativa própria, o vimaranense Francisco Martins Sarmento (homem abastado e interessado, advogado de formação, poeta de coração, escritor frustrado e, finalmente, arqueólogo e fotógrafo por exclusão de partes) deu início a escavações arqueológicas neste lugar que há muito mostrava estranhas arrumações de granito. Uns anos depois, o Senhor Francisco já tinha comprado os terrenos e andava entusiasmadíssimo a exibir as suas descobertas aos estudiosos estrangeiros de então que se deslocaram em massa a Briteiros para observar estas descobertas e foram recebidos com banda musical e tudo.

Todos os frutos das suas investigações e escavações acabaram legados à Sociedade Martins Sarmento. Para além da Citânia (e de outras 1500 coisas de tamanho mais pequeno), são património desta sociedade dois Museus: o Museu Arqueológico Martins Sarmento e o Museu da Cultura Castreja.

O primeiro, no centro da cidade de Guimarães, ocupa parte do edifício-sede (projecto do famoso arquitecto do Porto Marques da Silva, datado de 1900) da própria Sociedade e vai acumulando vários objectos encontrados na citânia de Briteiros, noutros castros próximos e nalguns mais longe, como Almeirim! À guarda do Óscar, a exposição das peças maiores é feita nas traseiras da sede que roubam o espaço do bonito claustro da Igreja de São Domingos. Digamos que aqui os objectos estão um tanto ou quanto semeados pelo claustro, quem sabe se à espera que criem raízes e dêem frutos.

O outro museu, o da Cultura Castreja, ocupa o Solar da Ponte, antiga propriedade da família Sarmento. Fica já fora de Guimarães, em São Salvador de Briteiros. Aí se aprende sobre a vida do senhor Francisco, refez-se a sua escrivaninha, o seu laboratório fotográfico e dão-se a conhecer as curiosas (muito curiosas) missivas trocadas entre Martins Sarmento e Camilo Castelo Branco (que humor o daqueles dois, quando já mais velhos que velhos à beira da morte!). Na cave, repousa a mais famosa que formosa Pedra Formosa que uns dizem ter sido retirada de um balneário, outros de um mausoléu. Em em tempo também houve a versão de fazia parte de um altar de sacrifícios de animais (história ainda hoje impingida, com fé e emoção, pelo guia do Museu de Arqueologia). A tardoz do solar, estende-se uma vista para os terrenos ainda à espera de amanho.

Dois postos de Turismo de Guimarães agoiram como é difícil tomar autocarros para chegar a este Museu. Os mesmos dois postos de Turismo de Guimarães dizem que é fácil ir do Museu até à Citânia tomando o percurso pedestre de Pequena Rota (pr2 citânia), a ter início à porta do Museu. Eu tentei, um e outro. De autocarro cheguei sem espinhas. A pé é que nem por isso.
Não se fiem que aquilo é “fácil e com desníveis pouco acentuados”, nem se fiem neste minimal mapa, o único cedido nas brochuras do Turismo de Guimarães. Consciente da porcaria de mapa que tinha para me orientar, lembrei-me de fotografar, perto do Museu, o mapa do "outdoor" que já era melhorzito. Mas lá para o fim do percurso perdi-me mesmo em pleno mato e quando me apercebi disso achei que nem valia a pena voltar para trás, certa de que o caminho por onde eu ia havia de ir dar a algum lado. Não foi nada de grave. Passado um pouco avistei uns telhados, para onde me encaminhei e encontrei um café. Vermelha como um tomate, daqueles bem maduros que até já têm umas mossas, entrei e Boa Tarde, diga-me senhor isto aqui é Briteiros? Sim éie, mas aqui à bolta hái três Freguesias de Britéiros, há Beitéiros de Sãou Salbador, Britérios de Sãnta Leocádia e Britéiros de Sánto Estébão! Ai sim, e esta não é a de São Salvador pois não? Nãoe aqui éie Santo Estébão. Pronto 'tá bem, então e diga-me lá, para Guimarães onde é que apanho o autocarro? Para Guimarãeis é mesmo nesta estrada, póde apanhar na paragem ali para trás oue ali para a frente. Qual é mais próximo? Ai é igual menina, mas na paragem da frente o bilheite debe sair mais barato.

(Assim como assim vale mais espreitar com tranquilidade garantida umas habilidades das modernices da Internet nesta visita virtual.)


A casa do conselho e
uma das vias principais da citânia

09 julho 2007

e São João e São Pedro

O Balão do João
Ribeira do Douro, Porto

Por coincidência, o Dentro do Mapa poisou no Porto a 23 de Junho e em Vila Real a 28. São as noites mais populares para cada uma destas cidades: São João e São Pedro.

À chegada ao Porto revelaram-se surpresas: não havia mais quartos no hotel onde eu tinha pensado ficar nem em dois hotéis próximos; a Avenida dos Aliados não é tão grande como se ouve na rádio ou se vê na Tê Vê; e a melhor de todas (para mim também a maior) é que estava calor e o céu azul, sem nuvens naquela cidade, carago! Depois disto seguiu-se, também com surpresa, a minha primeira vez na noite de São João.
Que outra coisa poderia estar na origem de uma festa do povo para além de uma reconhecida e sincera homenagem do homem camponês ao poderoso Sol? Claro, só as imposições da Igreja tentando disfarçar estas manifestações espontâneas e pagãs. Assim sendo, a cidade do Porto tem variadíssimas proles de representações de amor a São João. De amor divino: igrejas, capelas, altares, azulejos, retábulos, estátuas. De amor mundano: pontes, hospitais, teatros, hotéis, escolas de enfermagem, palácios. E de amor popular, com direito a festa em dia especial: alhos-porros, manjericos, erva-cidreira, cascatas joaninas, balões, fogueiras, fogo-de-artifício e martelinhos na cabeça!
Na Ribeira, enquanto se espera com um Q de religioso pelo lançamento do fogo de artíficio, todos se dispõem a apanhar com martelos ensurdecedores na tola ou alhos-porros na fronha (que cheirinho!). É uma folia carinhosa e com uma curiosa afinidade entre todos bem mais forte da qualquer-coisa que leva os alfacinhas para a rua na noite de Santo António. E, não desfazendo da companhia da Senhora Dona Humbelina (para quem Portugal podia mesmo era acabar logo ali em Rio Maior, lá para baixo já não há mais nada que não haja aqui - sim, eu já lhe tinha dito de onde vinha), aposto em como entre amigos esta noite será ainda mais mágica.

Em Vila Real os festejos são mais estranhos, começando pelo facto de terem lugar na noite de São Pedro apesar do santo padroeiro da cidade ser o Santo António, que deve ficar pior que estragado com as cerimónias que os Vila Realenses fazem em honra do seu adversário directo. (E agora ocorre-me: o que faz então com que haja uma Vila Real de Santo António em pleno Algarve, ainda para mais tendo a Nossa Senhora da Encarnação como santa padroeira??!!)
Durante uma semana, a principal avenida da cidade de Vila Real, a Carvalho Araújo, fica fechada ao trânsito automóvel e abre goela ao engarrafamento pedonal de vendedores, consumidores, mistos, neutros ou cães. É a Feira de São Pedro, em tempos conhecida pelos seus pucarinhos de barro preto de Bisalhães (objectos agora em vias de extinção, desentendendo-se os velhos artesãos com os muito modernos [des]governadores do município). Nos dias de hoje, de artesanato vê-se pouco, o que está mesmo a dar é a Feira da Cueca e é hora de comprar o dito artigo para todo o ano!
À meia-noite, na passagem para o 29, marcam-se os festejos com o chamado Arraial, ou seja: lança-se fogo de artifício, sem bailarico, sem comes nem bebes, mas ao som de qualquer coisa. E a noite passa-se teimando, entre os locais e os visitantes, sobre o significado da palavra Arraial. Em Roma sê como os Romanos!

O Arraial do Pedro
Vale do Corgo, Vila Real

07 julho 2007

Botânico e Buçaco

Avenida das Tílias, Jardim Botânico
Coimbra

O Jardim Botânico em pleno centro da cidade de Coimbra e a Mata Nacional do Luso-Buçaco a uns 30 km, são lugares de melodia bucólica a minutos dos barulhos rosnados pela cidade.
No Jardim Botânico entra quem se passeie por Coimbra. À tristeza de um espaço que me pareceu pouco amado pelos seus responsáveis (a zona da Mata não estava acessível, a da Estufa também não, o Jardim Tropical idem e o mesmo para o Jardins das Ervas Aromáticas) sobrepôs-se a gritaria de um grupo de crianças e os berros dos professores que os tentavam domar.
À Mata do Buçaco não se chega em passagem para outro lugar, é preciso seguir até ao fim do caminho. Calculo que poucos leitores se metam num autocarro público para lá chegar mas afianço-vos que pode ser feito. Do terminal rodoviário de Coimbra partem uns 4 ou 5 buses por dia que nos podem deixar (e trazer de volta) no Luso ou no Buçaco, este a 3 empinados kms do primeiro. No entanto, antes de se aventurarem na Mata convém que estejam munidos de alguma informação sendo as mais importantes de todas: no Luso há Posto de Informação mas no Buçaco não; no Posto de Informação há um Mapa da Mata mas no Buçaco é que estão os caminhos.
Eu andei na Mata sem Mapa. Não é que a Mata dê propriamente para nos perdermos lá dentro. Ainda que sejam mais de 100 hectares, com calma e com alguma atenção conseguimos ter sempre a noção da nossa posição. De qualquer das formas outra gente não se avista, placas e setas não há e assim sendo um mapa fará jeito, pelo menos para sabermos por onde andámos e por onde ainda podemos andar, para sabermos o que estamos a ver, e para sabermos quão longe estamos da saída. E, acima de tudo, com um mapa na mão sempre se descansa a alma quando só temos disponíveis um par de horas para gerir todo o passeio antes da passagem do último bus para Coimbra! (e claro que depois o bus passou atrasado, tão atrasado que pensei se não teria já passado, se eu não me enganara no horário... enfim, sozinha na paragem, mas lá cheguei a Coimbra.)

Aqui deixo uma recolha de links para os que se metam num bus, ou para os que se metam noutra coisa qualquer e não possam apanhar aberto o conveniente Posto de Informação do Luso antes de se embrenharem na Mata.

O Site Oficial da Junta de Turismo Luso-Buçaco

Um site bem bom, o Asterisco, cheio de MAPAS! (assim até parece fácil!)




Mata Nacional do Buçaco

algures lá dentro e algures lá alto (se eu soubesse por onde andei dizia-vos)
à direita podem avistar o Palace Hotel do Buçaco onde eu teria ido dormir se me tivesse perdido na mata ou se na mata eu tivesse perdido a cabeça

05 julho 2007

Casa da Livraria

Casa da Livraria e estátua de D.João III
Coimbra

Edifício construído entre 1717 e 1728 na antiga Alcáçova, entretanto Paço das Escolas, aqui se guardam religiosamente 200.000 livros, tão antigos como o séc. XVI!
Em defesa de tanto papel escrito, esta Casa está preparada com alguns pormenores. As paredes exteriores foram feitas com mais de 2 metros de espessura – não por questões anti-roubo mas sim para garantir que a humidade relativa da sala ronde sempre os 60% e temperatura os 18 e os 20º.C; os turistas estão autorizados a entrar mas só em turnos controlados e os estudiosos, para acederem a alguma obra, devem apresentar justificação por escrito e só na Biblioteca Geral poderão consultar o seu livro. O mais difícil foi, contudo, controlar a visita dos papirófagos (ou bibliófagos), insectos que não pagam bilhete nem sabem escrever e que ao conjunto deste papel chamariam um Figo e encheriam o papo até rebentarem. Contra a sua presença utilizou-se madeira de carvalho para revestir o interior da sala e nas estantes. É uma madeira demasiado densa para deixar entrar um destes insectos e lança ainda um cheiro que lhes desagrada. Mas o melhor de tudo foi a introdução de uma colónia de morcegos que à noite papa ocupantes atrevidos (creio que prefere os insectos papirófagos mas que não diz não a turistas atrevidos ou estudantes borrachos). Depois cabe para o zelador do lugar apanhar a caca que os morcegos devolvem sobre as capas com que cada noite se proteje o mobiliário da sala!
Por azar só soube desta colónia depois de lá ter estado, quando mais tarde me dediquei a ler o papel que me foi entregue aquando da visita. Se passarem, averigúem!

Esta Casa da Livraria é conhecida como Biblioteca Joanina, por ter sido mandada construir por D. João V, o Magnânimo.

Castelo Coimbrão

A primeira frente de casas, em baixo, subindo para a direita é a
Couraça de Lisboa
nome dado à frente da muralha com que se deparava quem
chegava a Coimbra vindo de Lisboa

Não precisamos (nem o devemos fazer visto tratar-se de uma senhora) de lhe perguntar a idade para saber que Coimbra é mulher de muitas Primaveras. Tem pelo menos as suficientes para ter vivido no tempo em que as cidades tinham castelos. Mas hoje, na zona alta de Coimbra não há castelo que nos ensine história - há antes uma universidade, nada mal!

O Castelo de Coimbra atava as duas pontas da muralha no seu lado Sudeste, junto à Porta do Sol, adequadamente apontada a Nascente. D. Afonso Henriques mandou aí erguer-lhe uma torre de menagem de base quadrada, seu filho D.Sancho I preferiu uma pentagonal e, uns anos depois aquando da reforma Pombalina da Universidade, o Marquês lembrou-se de mandar as torres pelos ares para erguer um Observatório Astronómico e ficar a ver estrelas. Reza a história que a cisterna, sobre a qual assentava o castelo e estas duas torres, não estava dimensionada para suportar as cargas do Observatório e vai daí, para aquele lugar, nem torre quadrada, nem torre pentagonal nem o Observatório, está lá hoje o Largo Dom Dinis mesmo antes de cairmos pelas "Escadas Monumentais" abaixo. Catrapum!

Sobre a porta de Almedina, a que foi a principal entrada na cidade, apontada a Poente, encontrei um museu-moderno a ocupar a respectiva torre. É o "Centro Interpretativo da Cidade Muralhada", um museu do município. Como anfitrião recebe-nos um apaixonado pela muralha ainda que, por ter má visão, precise de falar muito sobre nós é um encanto de senhor. Há uma maquete com o traçado da muralha por alturas do séc.XII, há um vídeo com habilidades virtuais sobre a história urbana de Coimbra, há uma exposição temporária sobre bonitos desenhos da cidade muralhada, feito por Peir Maria Baldi em 1669, ilustrando a viagem de Cosme de Médicis por Espanha e Portugal. A cereja no topo do bolo somos nós no topo da torre!

Não resisto em deixar este índice para que espreitem outros desenhos de Maria Baldi feitos durante a mesma viagem. O livro está disponível no site da Biblioteca Nacional Digital.

04 julho 2007

História riscada à beira do Mondego

Conhecia-a de nome e de vista, mas de soslaio. Apesar de estar quase certa de que em pequenita andei pelas casas do Portugal dos Pequenitos, verdade se diga que as memórias que guardo me parecem ser ideias que entretanto construí sobre imagens que, em tempos mais recentes, terei visto algures. Afinal, estive aqui antes ou não estive aqui antes?

Lá do alto, a cidade de Coimbra espreita o pachorrento Mondego. É a geometria da urbe que risca a encosta até ao rio e que agita esta paisagem. Coimbra tem cara bonita com rugas que ao sol se riscam mais fundo e que mais fundas melhor lhe ficam. Os riscos de Coimbra exibem provas da história vivida pela cidade.
Aquela ruga mais longa, que lhe atravessa a testa, é o que resta da linha da muralha que há tempos guardou a população. Coladas a ela desenrolam-se, do lado de dentro, ruas e casas com cara de quem almoçou torres de muralha. Do lado de fora as ruas cresceram depois do país conquistado, ziguezagueando sem medo pela Baixa virada a poente, salubre e cheia de vida. Rasgando uma pequena bolsa entre estes riscos e contida entre edifícios altos, a Praça de Comérico é praça capaz de engolir gente, de nos fazer ficar a olhar para si e para nós dentro dela. Para varrer o trânsito rumo ao Norte, a Rua da Sofia foi risco aberto no séc. XVI que, de tão grande e inovador tamanho, até de outros países vieram gentes para a contemplar. A Praça da República, do fim do séc. XIX, é linha que cose a colina ao modernismo que se alastra cada vezs mais. No cocuruto da cidade, o penteado é definido por uma larga quadrícula entupida de carros que separa algumas das faculdades da Universidade re-re-reformada. A ponte de Santa Clara é risco feito e refeito atravessando o Mondego sempre no mesmo lugar por todos os que governaram a cidade e desembocando no Largo que ainda hoje se chama da Portagem. Paralelo ao rio, risca-se de fresco o moderníssimo Parque Verde do Mondego, que ainda espera vir a tornar-se numa bonita ruga com vida entranhada.

Lembrei-me entretanto: sim, eu já aqui tinha estado! Veio-me à memória um caderninho de folhas A4 dobradas em A5, presas por um fiozinho de lã que se enrolava ao vinco das folhas. Era um caderninho de excursão escolar com desenhos para colorir e exercício simples precisamente sobre a visita ao Portugal do Pequenitos. Não servia de avaliação alguma mas, pelo menos, serviu para assegurar memórias uns 25 anos depois!

02 julho 2007

Resumo à chegada

Castelo de Guimarães

No centro histórico do Porto os carris apontavam ao Norte. Pararam já no Minho, no centro histórico da janota Guimarães. O ritmo abrandou... um pouco, mas em breve deixei o cinzento da pedra do Castelo de Guimarães para me deparar com o cinzento do barro de Bisalhães, na cidade de Vila Real em Trás-os-Montes.
Hoje, o destino deste Dentro do Mapa está alcançado: Lisboa.
Os "resumos" publicados lançaram espaço para os Respigos colhidos nestes 10 dias. A sair já-já.

Barro de Bisalhães
Feira de S. Pedro (ou dos Pucarinhos), Vila Real

26 junho 2007

Resumo a meio caminho

Coimbra, do Convento de Santa Clara-a-nova

O Mondego e o Douro serenos, Coimbra e o Porto a escorregarem. Nas fotografias as semelhanças encontram-se mas no tamanho das ruas, nos centros de cada bairro, no ritmo das gentes: acumulam-se diferenças.
Estes dias correm mais do que as minhas pernas conseguem acompanhar. As cidades estão sempre a chamar-me para aqui e para ali. Os respigos amontoam-se à espera de um computador com menos nervos que estes.

Porto, a meio vão da Ponte D.Luís I

21 junho 2007

Dentro do Mapa

Fugindo antes que o Inverno chegue, Dentro do Mapa 2007 parte alinhado com o solstício de Verão. Segue sobre carris, entre Coimbra e Guimarães, entre o Porto e Mirandela. Destino: Lisboa!
(não se podem prometer Respigos se bem que a eles se aspire.)

07 junho 2007

Ovelhas Montesas

(precisa de som, a dar para o alto)

Primeiro era o assobio. Depois do longe chegou o sonido de uns badalos e para o fim não se ouvia outra coisa para além daqueles chocalhos. Quais melros quais chamarizes quais quês! Aquilo eram as feras que vinham aí, vinham chegando e vinham rápido, em corrida doida que se alongava e aproximava com um tom alarmante. Devíamos fugir? Ai, mas então para onde? Mas onde estavam elas? De onde vinham? Viriam danadas? De olhos semicerrados, mão de índio sobre a testa, olhava-se. Nada. Não se avistavam os bichos, que raio?! Esconderijos? Saídas de emergência? Escapatórias? Nada, só os chocalhos continuados e berrando cada vez mais alto! Um destino trágico? Iriam as bestas assomar-se sobre a caçada que, rígida pelo susto, se deixaria vencer antes de ter sequer entrado na batalha? Não! Ali-ali, é o monte que se está a mexer, ali! Mas não se mexiam as árvores, nem os calhaus nem os arbustos. Mexia-se o próprio chão. Como? Era uma onda de ovelhas que vinha descendo o monte ao sprint! Pareceu-me que algumas se tinham deixado enrolar e rebolavam colina abaixo, outras, ainda lãzudas, espalhavam caracóis ao vento e abriam a boca comendo o fresco da Primavera. As primeiras que chegaram cá a baixo, como onda que rebenta na areia, travavam de rabo deixando-se escorregar no chão, bêbadas e excitadas, perdidas em risos balidos, uma ou outra a chorar de rir agarrando-se à barriga!

Bom, na verdade dali eu mal conseguia ver os ovinos. Via sim, mas melhor ouvia, um rebanho de ovelhas descendo o monte, em correria de miúdos, como as que fazíamos nós em dias de festa de anos pelas barreiras, ainda nos tempos da escola primária - e que, claro, acabavam em curativos aos joelhos e raspanetes pelas nódoas pregadas nos vestidos novos.

Vê-se mais mexer a câmara do que se vêem as ovelhas a resvalar pelo monte. Enfim, é sempre útil um pouco de imaginação!

06 junho 2007

Por São Mamede

26.05.07, Vale de Carvão, PortalegreO Parque Natural da Serra de São Mamede foi criado em 1989. Arruma-se na ponta norte do Alentejo, no distrito de Portalegre, junto a Espanha. Marvão, Castelo de Vide e Arronches são os outros três municípios integrados no limite do Parque.
Em voo de pássaro, a alentejana Serra de São Mamede destoa com bom-gosto do redondo relevo do resto da região. É da altaneira Marvão que se diz ser o lugar onde se observar ver as aves vistas de cima! E é nesta serra que está o ponto mais alto de Portugal, a sul do Tejo. Nesta serra dividem-se as bacias hidrográficas do Tejo da do Guadiana: rio que venha de cima rumo a Oeste casará com o Tejo, os que vier de Este ruma a sul com o Guadiana fará união. Há aqui duas influências climáticas: Atlântico (frio e húmido nas vertentes Noroeste) e Mediterrânico (a verdadeira brasa alentejana nas vertentes Sudoeste). Como tantas outras serras, São Mamede funciona como uma barreira às leis dos ares e proporciona a condensação de humidade, logo facilita existência de chuvas e humidade que refrescando a zona e cativando fauna, flora e malta a passear.
E claro que por aquelas terras, uma vez por outra, lá nos espantamos com fálicas exibições megalíticas com uns cinco mil anos de presença.

De novo a pé, desta vez uma jornada breve de cerca de 12 km, ao início sob o olhar atento da altaneira cidade de Marvão, depois por caminhos estreitados por muros baixos de pedras e por carvalhos antigos para no fim os olhos se perderem sobre o vale. Partindo e chegando a Galegos, o passeio deu direito à travessia da ribeira de Galegos com marmitas gigantes (zonas do leito rochoso da ribeira, moldadas por pancadas dos calhaus que descem em turbilhão as águas); caminhou-se por uma respeitosa calçada de lajego seiscentista; tomou-se um café em terras de Espanha que afinal falavam português; subiu-se ao Castro da Crença, hoje em dia submisso ao domínio de uma vegetação maior que eu - tão submisso que Castro onde estás? piquenicou-se sobre os granitos do Rio Sever, à sombras das falsas mimosas, antes da travessia do Vale de Carvão para atingir a Ponte Velha e finalmente regressar a Galegos. (O 1ºlugar feminino recebeu uma bateria de máquina digital que se julgava perdida há meses! – cansou-se, o objecto, de brincar às escondidas.) E isto tudo reencontrando dois ou três grupos de turistas estrangeiros (e atenção que eram estrangeiros mas não-espanhóis!) que faziam o mesmo percurso. Quem sabe se talvez um dia isto das caminhadas pegue moda em Portugal e tenhamos de as fazer fora dos fins-de-semana e dias feriados!

31 maio 2007

EN 246-1

26.05.07, Marvão, PortalegreEste é a nossa passagem pelo Túnel dos Freixos ali no princípio da Estrada Nacional 246-1, entre Marvão e Castelo de Vide - Portalegre. Quem passa, se não vai a dormir, não esquece!
Os freixos (Fraxinus angustifolia - espreitado aqui) dão idade à estrada, dão juízo aos condutores que temem espetar-se neles, e dão medo aos co-pilotos que acabam por recorrer àquele travão oco debaixo do seu pé direito sempre que calha cruzarem-se com outro carro. Mas também nos refrescam com a sombra, e fazem-nos ver a paisagem às tiras e ouvir o som aos soluços.

No PDM do Município de Marvão, este troço da EN 246-1 é o nº.15 classificado na lista do Património arquitectónico e arqueológico. Li que entretanto a alameda dos freixos tinha sido desclassificada (?) mas não encontrei provas da destituição das árvores e esta referência cheirava demasiado a política.

Ao lado desta correnteza de árvores, no lado que fica na base da proeminência onde se instala a muralhada cidade de Marvão, lá nos cruzámos o que, em pleno Verão de há dois anos, era um fresco campo de golfe. Era então um oásis de verde na secura do Alentejo, que até feria os olhos a quem chegava vindo da palha seca e amarela dos campos e dos montes. Era um berro agudo na calma alentejana cantada pelas cigarras. Era uma nódoa de esparregado radioactivo numa toalha de tons pastel.
Este fim-de-semana, quando por lá voltámos a passar, por entre os troncos dos freixos revimos o campo de golfe. Estava murcho, triste, de barba por fazer, cabelo desgrenhado e a suspirar ressequido. Tinha até mau hálito. E ainda por entre os troncos dos freixos, fomos a tempo de ver, ao fundo, frescas-fresquinhas e a rebentar com a força de uma Primavera que todo o ano lhes deve cobrir o tecto, mais das mesmas urbanizações volumosas, quadradonas e a perfurar a terra sem dó nem piedade. Serão filhas ou netas ou bisnetas das que víramos também há dois anos. Mas ai que brotam como erva daninha!

09 maio 2007

Comunitarismo, até onde?

300407, Aldeia de Rio de Onor, Bragança A aldeia de Rio de Onor fica a norte do nosso norte, fica a dois curtos passos da fronteira com Espanha, e a três iguais da aldeia, sua siamesa, Rihonor de Castilha.
Desta aldeia portuguesa se diz que é a melhor preservada das poucas aldeias ainda comunitárias. Noutros tempos, mais do que agora, a população organizava-se para dividir entre si o esforço das tarefas necessárias à sua luta para viver naquela Terra Fria, lugar com clima tão severo e relevo tão teimoso. Partilhavam o trabalho nas terras de semeadura e nos lameiros (prados que acompanham cursos de água), orientavam-se nas vezeiras (pastoreio à vez) e no forno comunitário, e havia até o boi cobridor que por todos era bem alimentado a para todos bem trabalhava. Foi com a força desta aliança que as gentes foram sobrevivendo à fragilidade do isolamento de resto dos seus países, força que até fez medrar o dialecto rionorês, qualquer coisa com português arcaico e muitos toques de castelhano.

Saiu-nos frustrado o passeio à beira rio e acabámos a beber um café e a fazer perguntas ao senhor atrás do balcão. Num estilo nada virado para o turismo, ou talvez até já farto dele, respondeu-nos que ah isso o trabalho comunitário agora fazemos pouco cada vez há menos gente temos este campo largo aqui à frente onde cada família trata de um pedaço e todos se juntam na altura de o trabalhar. Conversa desconsolada, como a luz daquele dia, e cansados que estávamos esmorecemos à espera que todos fossemos e viéssemos da casa-de-banho. Entrento fiquei a saber que o Grupo Mário Madeira, com o seu palco móvel, vai tocar a Rio de Onor no dia 12 de Maio às 22 horas: um acordeão, duas guitarras e duas mini-saias prometem pôr a dançar até os esqueletos. E entra outro cliente. Boas tardes! Atão Manel hoje calhou-te a ti? É verdade o Zé teve de ir levar a irmã e vim cá eu ora tem de ser assim um vez eu outra vez ele temos de ser uns prós outros. É. O Zé comprou três isqueiros, dá-me lá um de cada, um do Sporting, outro do Porto e outro do Benfica, experimentou cada um deles e saiu.
Em Rio de Onor está a cair em desuso o comunitarismo agro-pastoril mas o próximo grito da moda vai talvez ser o comunitarismo turístico-comercial.

E porque o Manel do café não se descoseu com grande coisa, andei pela net à procura de mais informação sobre estas coisa do comunitarismo. Há um livro Rio de Onor, Comunitarismo Agro-pastoril de 1953, do etnólogo António Jorge Dias (editado pelo Presença) e este pequeno texto, com curiosidades q.b.!

04 maio 2007

Bicas, o cão-pastor

30.04.07, Aldeia de Montesinho, Bragança

Entre a aldeia de França (km 0 aos 670 m de altitude) e o alto da Lama Grande (km19,5 – 1380 m) parámos qual proficientes estrategas na serrana aldeia de Montesinho (km12 – 1007 m) para uns galões, um queijinho e umas informações. Tudo tomado num só gole à mesa do café que, não sendo café de cidade não se chama Café Central mas, em sintonia com a sua localização aldeã, chama-se então Café Montesinho.
A altura do sol, a cor das nuvens no céu, a distância que calculávamos termos ainda de percorrer até ao abrigo na Lama Grande, foram argumentos para que num instante as mochilas voltassem às costas e as botas se fizessem ao terreno. À esquerda deixámos a Casa do Povo, acolá um quadro com um mapa do parque, adiante a estreita rua por onde devíamos sair. Dez, quinze passos dados e da direita vem, escadas a baixo, ao nosso encontro, um cão branco de pelo cerrado, FIGAS ANDA CÁ!, gritou a velha vestida de preto que estava sentada na nesga de sol ao cimo das escadas. Mas o Figas - ou Fisgas, como a um de nós pareceu ter ouvido, ou Fragas como a outro soou mais enquadrado – não quis saber de apelos. Exibiu-nos piruetas, esfregou-se às parvas na terra e depois nas ervas, e zarpou pelo seu mundo a dentro, connosco querendo partilhá-lo como um verdadeiro cavalheiro senhor de montanha.
Ainda o enxotámos duas ou três vezes, vai p’ra casa pá que nós não vamos dormir a Montesinho. Mas o bicho fez-nos orelhas mocas e tratou de nos impor um ritmo de caminhada, farejando o caminho à nossa frente, chamando-nos a atenção para os desvios do trajecto e ainda nos mostrou bons atalhos e até como se brinca com uma raposa. Cumpriu bem a sua missão de fiel acompanhante e vigilante mas chegados à Lama Grande nem uma rodela de chouriço tínhamos para lhe dar – enfim, lá se lambeu com pão, biscoitos de azeite e brownies. Ainda o convidámos a entrar no abrigo, que estava aquecido pela lareira, mas o bicho não se devia sentir bem debaixo de tecto e aquele frio devia ser trocos para ele. Acabou por passar a noite lá fora, e ainda nos assustou com os seus passos na pedrisca ou com os ruídos arejados de cão que procura pulgas nas suas partes íntimas. De manhã, quando acordámos, o cão já não estava lá, teria partido para os que lhe davam comida.
Mais de 20 km depois chegámos à aldeia de França com os pés feitos em tábuas e a alma recheada de belas vistas. Apanhámos o carro, jantámos com o empate do Benfica-Sporting num restaurante de beira de estrada e acabámos por ir dormir a Montesinho. O bife de quase meio quilo que tinha sobrado do jantar tinha um destino: um pagamento retroactivo!
E se Montesinho é uma pequena aldeia: acabámos dormindo numa habitação sobre o Café Montesinho; a dona do café era também a dona do Figas que afinal de contas se chamava Bicas. E o Bicas, onde estava? Tinha chegado cedo à aldeia na manhã passada, e foi logo “apanhado” pela dona, a sair debaixo de umas escadas com ar comprometido. Não perde a festa com um grupo forasteiros de botas e mochilas que se faça aos caminhos que ladeiam Montesinho – aos locais não liga pevas. Agora estava de castigo, fechado num quintal – ainda que cheio de espaço, ali para trás da igreja.
Fomos lá dar-lhe o bife mas o que ele queria era vir connosco, pastorear-nos!
O Bicas foi um verdadeiro cão-pastor e nós o seu rebanho sem tresmalhos.

03 maio 2007

Selvagens e acampados

29.04.07, Lama Grande, S. de Montesinho, Bragança

Na lista de alojamentos do ICN para o parque de Montesinho, há umas fotos-giras de casas de alvenaria de pedra recuperada, com camas de lençóis lavados, almofadas fofas e chaminés a fumegar. Ao longo do trajecto que tínhamos planeado para o nosso passeio cruzar-nos-íamos com 4 destes alojamentos da responsabilidade do ICN. Pareceu-nos perfeito dispensarmos o carregar às costas de tendas, colchões e sacos de cama quando, ainda para mais, a alternativa passava por alugar umas destas casas-abrigo que a meio percurso no receberia de braços abertos.
O pedido de informações via e-mail está, ainda, por responder por outro colega que não o colega Sr. Simpático que nos esclareceu as dúvidas sobre os percursos. Recorrendo ao telefone “o Parque está cheio, só temos disponível a Casa Retiro de Montesinho e apenas para a noite de Domingo para Segunda-feira”. “Cheio?” Mas falava-se do Parque Natural ou do Parque de Campismo? “Cheio?” Verificámos a página da Internet: as restantes 3 casas que nos interessavam aparecem como estando “em recuperação”(!).
E assim, lá voltámos a carregar as mochilas com tendas, colchões e sacos de cama, para podermos dormir onde tivesse de ser.

No Sábado, ao pôr-do-sol, o chão da Serra de Montesinho estava ensopado e a chuva a querer espreitar das nuvens. Por prudência apontámos à Casa Abrigo da Lama Grande “em recuperação” que sabíamos, por conversa com gente na aldeia de Montesinho, estar aberta. Quando chegámos aos 1480 m. de altitude lá estava o frio e o Abrigo, afinal uma senhora-casa, comprida, com casas de banho que não preferimos à natureza e duas salas apetrechadas de lareira. Havia algum lixo arrumado numa caixa sob o alpendre, portas destrancadas, janelas sem vidros e portadas às escancaras. Lá dentro garrafas (vazias) de vidro, caricas e fuligem pelo chão, uma cadeira e uma vassoura. Mas de obras nem sinal!

Com arte, lá acabámos por montar as tendas no chão seco dentro do Abrigo, à luz de uma fogueira com lenha que gentilmente lá estava à nossa espera. Encostámos as portas e as portadas, comemos e fomos dormir. Não choveu durante a noite, nem ouvimos lobos a uivar. De manhã estava mais frio dentro do que fora do abrigo.

Mais ou menos retemperados com o descanso, à abalada para a segunda etapa da aventura uma reflexão se impunha e foi matéria debatida logo nas primeiras passadas do trajecto: quem seriam as figuras possivéis para substituir o Carmona Rodrigues no município de Lisboa? Ah não, não foi aqui que estivemos a brincar aos presidentes! Primeiro tentámos entender: por que razão é que o ICN não tem estes abrigos a funcionar? Estão as casas construídas e, pelo trato que terão tido, nem estão nada mal executadas; para se chegar lá já há caminhos percorríveis por automóveis; o lugar é bonito e isso é por certo o bastante para quem goste deste estilo de preguiça; ai... mas do que mais se pode estar à espera para pôr em exercício estas existências. E nem insistimos na questão que levará o ICN a apresentar estes abrigos como "em recuperação", metam "abandonados" sempre se sabe melhor com o que contar.

Mais próximo da chegada a França, à aldeia de França, encontrámos a Casa Abrigo do Rio Sabor também "em recuperação", nos mesmos moldes da empreitada da Casa Abrigo da Lama Grande. Mas que bonita é esta antiga casa de Guarda Florestal.

02 maio 2007

Caminhar

29.04.07, Serra de Montesinho, Bragança

De carro a paisagem foge, o leitor de cd's esgota-nos os sons, o condutor é mero serviçal e a velocidade na estrada adormece-nos a mente.
A pé a paisagem enche-nos, o silêncio deixa-nos ouvir os barulhos do nosso cérebro, a solidão alterna com a companhia ao ritmo de um passo mais acelerado ou menos, a velocidade do caminho engole-nos.
Não há melhor do que seguir andando, palmilhando uma terra que só se vê se assim for. E vê-se até ao fundo.

Por Montesinho

29.04.07, Serra de Montesinho, Bragança

O Parque Natural de Montesinho foi criado em 1979 e estende-se pelos concelhos de Bragança e Vinhais, ali na ponta mais a nordeste de Portugal.
O relevo deste cantinho não se exibe em grandes dramatismos de precipícios alucinantes ou cumes de fazerem arquear pescoços, tão pouco nos traz à mente a viçosa frescura de pinheiros, de florestas densas, ou lagoas e rios espelhados. Montesinho é antes uma paisagem discreta com vistas alargadas sobre montanhas suaves (chamam-lhe Peneplanície Fundamental) vincadas por vales de rios modestos. No alto vinga a secura do granito, da urze e da carqueja; junto aos rios há freixos e salgueiros; e entre estes, carvalhos e castanhos enquanto a altitude os deixar.
Mas esta é uma paisagem capaz de nos atrapalhar a respiração, de nos provocar incertezas sobre se estamos ou não a sonhar e até de nos fazer duvidar sobre em que planeta estamos afinal. Ao pôr-do-sol, o lilás da urze baralha-nos o cérebro e, ainda que se exclua de imediato a hipótese de estarmos em alguns dos planetas do nosso sistema solar, o planeta Terra não é, por certo, a primeira escolha.

Este 1º de Maio levou-nos para mais uma caminhada: 4 aventureiros, 2 dias, 1 noite, 40 Kms, entre França – Montesinho – Lama Grande - França .
Pareceu-nos que teríamos de voltar. Uns noutro ritmo mais calmo outros no mesmo ritmo mais delongado.

Links Úteis (para começar):
ICN/SIPNAT-info Serra de Montesinho