12 outubro 2007

É oficial: tenho telemóvel!

Riam-se entre dentes ou à descarada, batam com a mão na testa, deixem tremer de pasmo a vossa caudinha diabólica. Chorem, rebolem escarlates, trepem ao telhado do maior arranha-céus de Sacavém. Surpreendam-se ou repreendam-me: Toma lá, vês? Um dia havia de chegar. Também tu és uma comum mortal! Ou em alternativa: bocejem e não leiam o post.

E foi mesmo, o dia chegou. Chegou há cerca de um mês atrás quando esta minha vida deu um nó de escota difícil de gerir não fosse esta coisa que agora me acompanha tal cão de estimação, tal medalha de fio de oiro herdada, tal pulseira do São Salvador da Baía. Chegou o dia em que deixou de me ser suficiente parasitar o telemóvel Nokia do Quico ao ritmo de dois ou três minutos por mês. Depois de um período à experiência, deixei-me de tretas e assumi a relação com o telemóvel. Bagh!

Mas o raio do bicho tem que se lhe diga. Tomar conta dele não é coisa fácil e, com a minha idade, responsabilidades delgadinhas como esta custam a tornarem-se hábitos.
Tem sido uma aprendizagem esforçada:
- agora tenho mais um artigo a não esquecer quando se saio casa e que vem esticar ao limite a capacidade dos bolsos de calças ou casacos;
- tenho também mais número secreto a memorizar (e estou à espera do dia em que vou insistir com este PIN numa caixa Multibanco);
- o bicho precisa de ficar acorrentado à electricidade dia-sim, dia-não e, quando em fins-de-semana fora, até precisar de um necessaire para levar o seu carregador (ca betinho!);
- gasta mais aos cem que o próprio UMM;
- ainda hoje ando a tentar memorizar o seu tom de voz para consiguir reagir atempadamente ao seu chamamento (e arre que não vou lá! É ouvi-lo tocar, tocar, tocar, cada vez mais alto, cada vez em tom mais agudo, cada vez mais desesperado enquanto o vibrador se sobrepõe à melodia e lhe dá um agressividade de animal rugindo aos pares e ameaçando trincar-me assim que carregar no Aceitar. E enquanto isto dura eu abro pelo menos 50 fechos de 50 algibeiras num casaco ou mochila que só tem dois bolsos!!)
- quanto a controlar o tom de voz de chamamento das SMS, disso já desisti mesmo. Estou farta de procurar mas este bicho não tem um apito dos normalizados e nunca, nunca oiço um SMS a chegar;
- o que mais me demorou a descobrir, e aprendi-o às custas de falhar recados importantes, foi que o bicho precisa de estar ao pé das janelas a apanhar ar e a entreter-se com quem passa lá em baixo. É que esta casa não tem rede no seu interior, é casa-à-prova-de-bruxas;
- outra coisa que demorou foi encontrar as SMS que guardava para mais tarde enviar. (Já sabem? Este bicho arruma as Mensagens Guardadas na pasta das Mensagens Enviadas, na sub-pasta das Não Enviadas!);
- também deixei de poder fazer a piadinha de dizer, perante um telemóvel que apita, "este não é o meu". Aliás, no outro dia tentei armar a gracinha mas foi-se a ver e era mesmo o meu!,
- e no meio disto tudo lá vou aprendendo esta forma de comunicar ao estilo do "mando um toque" e do "depois ligo-te para combinar que te ligarei mais tarde para combinar mesmo";

Claro que este bicho foi-me dado (a minha loucura não vai tão longe). Era quase-refugo de generosa alma possuidora de um bisneto de outra moderna geração tecnológica. Foi assim que me calhou um Alcatel que tecla "SIM" onde o Nokia teclava "ESCAPE", que "ABORTA" onde o outro "CONFIRMAVA" e que assim me tirou do sério, me fez perder horas a tentar mandar SMS, me fez "desistir" de chamadas que queria atender, me levou a apagar contactos que queria guardar e me fez bater com a cabeça duas vezes em sinais de trânsito e chocar outra meia dúzia delas com transeuntes.

É verdade que o bicho tem vantagens, mas ainda estou convencida que usufruem delas mais os outros do que eu.
O pior, ou o mais triste, é que este Alcatel sabe muito pouco do nosso querido português. Não tem acentos ´, ` ou ^ (excepção feita ao "à"), nem tem ~~ sobre os AA. Vale-me que tenha um N com ~, não vá eu precisar para añunciar o dia do meu cumpleaños.
O melhor é que basta carregar em três teclas para fazer o bicho calar-se até que me apeteça!

Mal o oiço, poucas vezes o trago comigo, menos lhe carrego a bateria e do saldo nem vos conto. Em resumo: não me liguem, é mais seguro mandarem um mail!

Riam-se, tremam a cauda, chorem, rebolem, surpreendam-se mas reparem que à conta do telemóvel e desta vida de comum mortal o Respigo desbotou!

11 setembro 2007

Búzios

Para recolher pontos nas tabelas de audiências no caso da pequena Maddie parece-me que já só falta lançarem-se, ao vivo e em directo e de preferência com tambores a rufar, os búzios!

Consigo bem imaginar, num serão televisivo, o pivot a levantar-se da sua cadeira colocada entre os prós e os contras e, de microfone em punho, dirigir-se à primeira fila da sua plateia com o mesmo ar seguro e orgulhoso de um aluno chamado ao quadro depois de um serão passado a estudar a lição.

Consigo bem imaginar uma velha gorda e preta com umas patilhas de carapinha mal semeadas queixada abaixo e um olho a apontar para o infinito por causa de uma catarata avançada. Está sentada a ocupar duas cadeiras da plateia. O cabelo e o torso (o resto do corpo imagino que não esteja a ser filmado) estão escondidos em lenços atados com ráfias polvilhadas de missangas coloridas e brilhantes. Enfeita-se com colares e pulseiras onde se penduram guizos, crinas e dentes (não imaginaria tão bem que alguém se lembrasse de pendurar ao peito um crânio humano, mas lá está ele, pequenino, com lugar de destaque no colar de entre por um olho e sai pelo outro).

Depois imagino igualmente bem que o pivot agradeça a presença do convidado que acabado de chegar, até vem quase do outro lado do mundo, num esforço a que só a gravidade do caso obriga. Vai tecer-lhe uns elogios dando aos telespectadores crédito pelo seu precioso trabalho, faz uma pergunta, dá logo a respectiva resposta e feita que está a cama lá pergunta: Diga-me que foi que aconteceu à Maddie?
Sem responder, pelo punho da manga esquerda a velha gorda vai puxar por uma ponta de um pano retorcido como uma tripa. Puxa tudo até ao fim e, juntando as duas extremidades, sacode aquele intestino. Ouvem-se os guizos dos colares e das pulseiras, chocalha o crânio pendurado mas mesmo assim se adivinha que os búzios se baralham. Revira os olhos e beija o pano. No seu espaçoso colo, a lançadora pousa o pano e deixa que ele se desdobre por si só. Os búzios mostram-se, rebolam e baloiçam até que se aconchegam à topografia própria daquele regaço. Perante tal invulgar arrumação das peças espantam-se Os Prós com “Ooh” de Ora-toma-lá e se espantam Os Contras com “Aah” de Eu-bem-te-disse.

Baralhado fica também o pivot que retoma a pergunta O que foi que aconteceu à Maddie?. Pela primeira vez o microfone na sua mão faz soar pelo anfiteatro uma voz seca e áspera como um carapau aberto a secar ao sol. Apontando o olho bom para a cara do jornalista, a velha disse em tom cúmplice: Num posso dizê o qui aconteceu. É sigredo di justiça.

Fácil de imaginar!

Porque é que não somos nós capazes de deixar o Tempo demorar o seu tempo?
Estamos nesta vida cada vez mais impacientes. Queremos tudo, tudo rápido, tudo já e nem sabemos esperar com calma pelos próximos episódios. Esperemos e logo se verá como foi que poisaram os búzios. Certo é que a nossa pressa não apressa o tempo do Tempo.

30 agosto 2007

O mais ágil

http://www.wcsn.com/article/news.jsp?ymd=

Donald Thomas (1984), Bahamas
Mundiais de Ateletismo, Osaka 2007

Finalmente ao quinto dia plantei-me em frente à televisão e vi toda a jornada dos mundiais de atletismo de Osaka.
Calhou-me o concurso que escolhe o mais ágil de todos os atletas: o salto em altura. É um concurso muito emocionante de se assistir, com o seu estilo roda-bota-fora que vai excluindo uns e dando oportunidades sucessivas aos que em três tentativas conseguem saltar sobre a fasquia poisada cada vez mais alta. E foi assim que, depois de apenas plantada, cheguei mesmo a ganhar raízes sentada ali no sofá.

O cubano Victor Moya era uma séria esperança para ficar entre os 3 primeiros, em parte por ser conterrâneo do saltador Javier Sotomayor (o atleta que mais próximo do céu chegou saltando a partir da Terra quando, em 1993, superou a fasquia colocada aos 2,45m). Nos mundiais de Helsínquia, em 2005, foi Victor Moya quem conquistou meia medalha de prata. Mas hoje falhou, por 3 fatais vezes, o salto a 2,33 e nem chegou a ver os degraus do pódio.

A outra metade dessa mesma medalha ganha na Finlândia foi parar ao peito do Russo, Yaroslav Ribakov, que hoje se empenhou e fez uma muito melhor prestação tendo guardado a medalha de prata inteirinha só para só para si.

O sueco Sthefan Holm era, mais do que candidato a uma das medalhas, candidato ao próprio título. Sthefan Holm é um veterano de 31 anos de idade que nunca conquistou medalhas de ouro em mundiais de atletismo (pobre coitado, pode gabar-se apenas do primeiro lugar nos Olímpicos de Atenas e outros primeiros em pista coberta). Para além destas razões que, quanto a mim seriam bem mais que suficientes para um homem ser reconhecido com a primeira das medalhas em mundiais, o sueco estava a fazer um concurso limpinho. Tendo prescindindo do primeiro salto, superava à primeira a fasquia que ia subindo: 2,21; 2,26; 2,30; 2,33. Mas depois: 2,35; 2,35; 2,35 foram 3 tentativas e 3 derrubes desta fasquia que lhe valeram um 4º. frustrado lugar. Será que para o ano há mais?

A medalha de bronze foi para o jovem cipriota Kyriakos Ioannou que superou os 2,35 à segunda tentativa, que depois se espalhou redondo no 2,37 mas que, ainda assim, bateu por duas vezes o record nacional que estabeleceu ele próprio ainda no início deste ano de 2007.

E eis que aparece aos saltos Donald Thomas. Jovem com os mesmos 23 anos de idade que o cipriota, Donald Thomas vem das Bahamas mas vem também do basquetebol. Enquanto que o cipriota anda em campeonatos de salto em altura desde os seus 17 anos, Donald Thomas iniciou-se nisto apenas o ano passado.
Reza o que já é uma lenda que tudo começou com uma aposta entre amigos num café, depois de uma partida de basquete. Dois meses depois desta aposta, Donald Thomas conquistava o 4º. lugar nos jogos da British Commonwealth em Melbourne (calçado de ténis de basquete porque ainda não tinha tido tempo para se habituar aos pitons das sapatilhas de salto em altura).
E hoje, em Osaka, 18 curtos meses depois de Melbourne, Donald Thomas ganha o ouro. Limpinho!

Quando saltou, logo à primeira, os 2,35m Donald Thomas mais que truques de magia exibiu-nos quase-milagres. Podem ver o salto aqui, clicando na linha escrita a azul no topo direito da fotografia; ou aqui seleccionando "Wednesday 29 Aug", "Evening", "Men High Jump Final" (ufa!).
Reparem como primeiro suspendeu o tempo enquanto impulsionava o seu corpo (dei por isso claramente pelo bater lento do coração, pelo silêncio em que a rua ficou).
Depois mandou vir uma parede invisível ao longo da qual trepou para ganhar altura (num estilo um tanto ou quanto estranho para esta disciplina de atletismo porque enquanto sobe dá às pernas como se corresse ou se pedalasse numa bicicleta).
E por fim, mandou parar por instantes a força da gravidade enquanto se esticava para, com o corpo já deitado, se desviar da fasquia (eu, a televisão, o tapete levitámos também!). Nada mau, ein?

Bom, e agora que as minhas raízes vão mais fundas, aproveito para ficar aqui à espera dos Olímpicos de Pequim para ver se este Donald Thomas jovem-surpresa-mágico se continuará a revelar tão bom. A sua fasquia está alta. Tão alta quanto o incrível Sotomayor a deixou!

E para terminar, os parabéns se enviam aos atletas portugueses. A todos!

17 agosto 2007

Com as mãos na massa!

Como a malta sabe, a própria malta anda a rechear de lama a casa do Pedro e por isso tem tido pouco tempo para vir passear aos blogues dessa mesma malta.

Na véspera do terceiro workshop deixo algumas brevidades sobre o que têm sido estes dias passados a moldar a terra do local nos triângulos de madeira que formam a estrutura da casa.

Trabalhar com a terra misturada com areia e água é um prazer. Não há manuais, nem palestras, nem receitas milimetricas mas umas mãos interessadas num instante descobrem por si qual a mistura ideal de barro (com mais água para aqui, mais seco para ali, esta precisa de ser mais amassada) ou como rechear melhor cada triangulo (onde esborrachar, onde dedilhar, onde pressionar, onde dar palmadinhas, onde molhar). A tarefa destapa-nos um estranho "instinto-primário".
Esta tem sido uma aventura partilhada por vários voluntários. Alguns deles são amigos, outros amigos de amigos, outros são família, outros são interessados completamente espontâneos. Tudo "gente de escritóri" capaz de trocar um Sábado estival por uma jorna nas obras! E a gente vai e a gente repete, mesmo a gente "espontânea" que carrega, inevitavelmente, uma motivação maior que todos!
Por mim, acho que nunca me senti tão próxima de um pássaro como enquanto me dedico com toda a paciência a calcar um triângulo com lama fresca que há-de ser parede, que há-de ser casa.

Temos assim passado uns belos dias e avaliando pelo que falta, e aqui que o Cliente-Pedro não me ouve, muitos belos outros se avizinham.

E agora vou dormir porque amanhã levanto-me com o pedreiro!

07 agosto 2007

Memória Bárbara


Deus existe?

No último post eu tinha acabado de chegar a um PC semi-público com o portátil às costas, os ombros descaídos, o cabelo no ar e a arrastar a cauda pelo chão. Depois de consultada a minha caixa de correio electrónico e de feito o gostinho ao dedo com a publicação do post, googlava então "pci.sys". Digo-vos com toda a franqueza: fi-lo por inspiração do post, por hábito em criar links para complementar a informação que transmito, não com esperança de ver o problema resolvido.
Verdade verdadinha é que a esperança, essa, tinha definhado há poucos minutos, depois da conversa com o tal "amigo" que mais não era do que um pálido conhecido de um verdadeiro amigo e ao mesmo tempo um sortudo contemplado com um CD do Windows XP. O ficheiro pci.sys parecia estar corrompido e a mensagem de erro dizia para voltar inserir o CD do Windows para que se procedesse à recuperação do sistema operativo. Várias vezes inserido o CD na drive, sistematicamente a mesma mensagem: "erro 4" nhã-nhã-nhã "o Windows não pode continuar". E do amigo Ah pois, assim é mais difícil se nem a drive colabora. Parece-me é que o disco já deu o badagaio (sempre é melhor dar isto do que dar o "peido mestre", como já ouvi ameaçar!). Estas coisas estragam-se. O melhor é tentares salvar os ficheiros. Pode ser que ainda dê. Pode ser que ainda se consiga aceder ao disco mas é preciso arranjar um adaptador (pareceu-me ser este um objecto raro, disponível só em Vénus ou Marte e talvez só a partir do ano de 2343). Daqui não há mais nada a fazer (ai!).

O horror, a tragédia, a desgraça, a catástrofe. É sentimento azedo ver morta uma coisa que não devia sequer ser pensada como sendo coisa-viva. Que dor no peito, na barriga, na alma. Todas elas moendo apenas e só o Desgraçado que tem os ficheiros lá dentro Mas que raio, porque é que o meu último back up é de há três anos, porque é que não tenho os Favoritos guardados na pen. E resigna-se este Desgraçado. Deixa-se convencer que com o tempo o esquecimento atenuará a dor e conforta-se no apoio das palavras ditas por aqueles que partilham este momento em directo e nas palavras escritas pelos que comentam o post que anuncia a desgraça.

Lamuriava-me assim sobre o meu triste fado quando o Google me devolve os resultados da busca. Em primeiro lugar propõe-me um link com ar sério proveniente da Microsoft support. Sintomas em Windows 2000: …, resolução para o Windows 2000:… Resolução? Olá-olá, será isto um pontinho luminoso que vejo ali ao fundo?
Refinei a minha pesquisa googlando o nome do ficheiro em conjunto com o sistema operativo correcto. Et voilá! Sintomas: mensagem de erro diz que o pci.sys está corrompido? (Sim diz…), uma vez inserida a consola de recuperação devolve "erro 4"? (SIM, DEVOLVE!) Resolução: desligue todas as coisas da net (não tenho nada disso ligado) e se o mal persistir (ai… sim? SIM?) retire cada slot de memória uma a uma, reiniciando o PC até descobrir qual é a ruim (Ah! É? Juram?). E o pontinho luminoso abriu o diafragma transformando-se num brutal foco que me envolveu com a sua luz divina, me vestiu de tule branco semeado de miosótis azuis e perfumados, me fez saírem estrelinhas da testa que soaram prilimpimpim e, acho que não exagero se disser que o foco de luz, até me fez levitar o rabo da cadeira. Ao fundo, comecei a ouvir a Barbra Streisand no seu Memory.
Iluminada, saquei o portátil mesmo ali. Enquanto desaparafusava a tampa, atrás da qual se arrumam as memórias, as minhas mãos tremiam (stress? excitação? Ná! Tremiam porque, como não tinha ali ao pé nem uma micro chave-de-cruz, nem o meu canivete suíço, nem a mala do Sport Billy. Eu estava a realizar aquela operação com um jeitoso molhinho de 3 agrafos – ou acham que eu ia esperar por chegar a casa para ver se o truque funcionava, ã?). Tirei logo a primeira memória que me apareceu à frente. Sabia que era uma extensão (instalada há 4 anos) da memória original. Voltei a aparafusar (ou agrafar) a tampa. Inspirei fundo, evoquei os Deuses, chamei à atenção e à concentração de todos os presentes e carreguei no ON. Esperei que o XP arrancasse. Arrancou. Esperei que chegasse ao fim. Chegou. Esperei que o Desktop se escancarasse à minha frente. Esperei. Esperei. Esperei. E apareceu. Tudo. Estava lá tudo bem desarrumadinho, tal como tinha deixado na sexta-feira de manhã.

Respigo agora a partir de casa, com um Pentium III a 746 MHz e 128 (sim, cento e vinte e oito) MB de RAM. É um terço do que tinha a semana passada. Não é que esteja "lento". Saibam que agora trabalho com o livro que ando a ler aqui ao lado do portátil e dei-lhe um valente avanço hoje! Para além ter de me conformar com este ritmo de trabalho, uma nova luta se avizinha: arranjar memória compatível com esta brava máquina, mais velha do que as coisas que se vendem pelas lojas da capital. Vamos a ver. Até lá darei um pouco de sossego ao Respigo, para que todos nós nos recomponhamos das maleitas (estou com medo que o processador "derreta" que é expressão ouvida algures!).

Se Deus existe? Ora se Dele se diz que está sempre presente e que tudo ouve e tudo vê e tudo sabe. Ora então parece-me fácil a resposta. Deus existe sim, e está neste no mundo terreno sob forma de Internet sempre presente, sempre vendo, sempre sabendo.

Se há milagres? Porque é que não há-de haver? Afinal se uma excepção fatal faz estragar-se o pci.sys porque é que não haverá uma também excepção, benigna desta vez, que resolva o problema. E é esta a mensagem divina que aqui vos deixo: antes de desesperar e formatar… inspirem fundo, ide à net, confiem e se for o caso liguem-me!

Ontem fomos ao cinema, partir o coco a rir com the Simpons, Movie. O meu coco gostou muito de se partir, mesmo ainda mal refeito que estava dos pedacinhos em que em que vivera disperso estes últimos dias.
Só não fui a tempo de jogar no EuroMilhões, mas já o fiz hoje, quem sabe se iluminada pela estrelinha de ontem.

06 agosto 2007

pci.sys

Na sexta passada foi-se o pci.sys.
Primeiro foi o terror: boca seca e transpiração estratégica (seria dos 40º graus que bafejavam Santarém?). Depois foi o desespero: estática de mão no queixo a olhar para aquela caixa (lembrou-me o ET embrulhadinho num pano plástico). Seguiu-se o vazio: o fim-de-semana inteirinho a sentir-me amputada -não sem mãos nem sem braços, mas sem conseguir alcançar todo o mundo onde estes dedos tocam quando me sento a um teclado. E depois foi a ressaca: afinal como, nos dias de hoje, se entretém a alma com coisas palpáveis?Certo certo é que o meu Windows foi vítima de um temível QCSP.
Hoje, segunda-feira, telefonei para a Toshiba: aconselharam-me a "falar com um amigo" (simpática, ein?!). Levei o portátil ao amigo: disse-me que o meu leitor de CD’s não estava a conseguir ler (desalfabetizou!) o CD do Windows e que assim sendo, nada feito para já. “Impossível de reparar” (ui!), “desmontar tirar o disco para arranjar forma da salvar os ficheiros” (aich!), o disco deve ter atingido o limite de idade de vida (aaaahh!).
De momento estou a bordo de um PC público (ou quase). Vim à net ver os mailes, satisfazer o vício do Blogue e, já agora, porque não tentar recolher ter pistas sobre este problema. Não, não acredito em milagres mas por isso mesmo também não amocho já, só por ter “dado o badagaio” a um tal ficheiro pci.sys.
Vamos ver quando volta o Respigo!

02 agosto 2007

Poema ao banco

Outro Domingo Balnear
Praia de São Pedro de Moel, Marinha Grande

Bancos há muitos, para todos os gostos, e nem sempre são daqueles que fazem publicidade lastimável para as suas ofertas de negócio não menos nocivas.

Na pequena São Pedro de Moel, que vive de Verão a euforia tosca que hibernou durante todo o Inverno, não há nenhuma agência bancária!
Foi por isso uma surpresa encontrar este banco onde nem o turístico Verão, nem a depressão do Inverno conseguiram chegar. O banco tem a cara pintada mas pela maneira como está polida aresta do seu assento dir-se-ia que é quase tão velho como o mar que mira ou vá lá como a árvore que o sombreia.
Sobre o banco, pendurado na copa da árvore, um artista apaixonado e inspirado (talvez o senhor à sombra) pintou numa tábua as rimas que aqui transcrevo, não vá a dar-vos a preguiça ou venha a hipermetropia dizer que não se lê nada pá!:

Ó banco do descanso/Ó banco do reformado/Aqui se fala o presente/Aqui se fala o passado
Ó banco bem colocado/Debaixo desta ramagem/Senta-te e mira bem/Esta bonita paisagemÓ banco de azul pintado/Que queres tu imitar/Não há pincel que consiga/Dar-te o tom do azul do mar
Ó banco se tu falasses/Tinhas muito que dizer/Se alguém te perguntar/Nunca queiras responder

Soube também que a única caixa de Multibanco de São Pedro foi de férias, aproveitando, pelo menos, este mês de Julho. Deixou um papel riscado a esferográfica a dizer Fora de Serviço e foi ver o pôr-do-sol. Fez ela muito bem!


29 julho 2007

então brindemos: à tua!

Rabirruivo Preto
Phoenicurus ochruros


Esta Primavera, quando entrámos na pequena adega do Casal dos Barros para acordar o vinho por já serem horas de o engarrafar, surpreendemos um Rabirruivo que atrapalhado acabou por escapar porta, ou fresta, fora.

Entretanto esquecido o incidente, foi com espanto que lá para o fim deste mês de Junho primeiro se suspeitou e depois se confirmou a existência de um ninho de Rabirruivo posto e já chocado numa das prateleiras daquele espaço. Vedado o local, o uso ficou interditado a humanos e canídeos e abriu-se um pequeno postigo junto ao tecto que logo foi adoptado como boca de cena pelos dois protagonistas da acção.

Foi à conta disto que precipitei o fim das férias Dentro do Mapa para conseguir apanhar lugar no último Domingo de representações. E foi um gosto! Foi um fim de tarde sentada, entalada debaixo das mesas do pátio, a ver, de nariz no ar como num espectáculo de Robertos, os papás Rabirruivos atarefados. O enredo era simples. Cada um à sua vez, papá e mamã, apareciam aos saltos sobre os telhados com bico carregado de insectos. Verificavam as condições do lugar (às vezes olhavam a assistência que pensava estar invisível debaixo da mesa). Depois pousavam à beira da boca de cena, sacudiam o rabo ruivo como nós faríamos para compor a indumentária antes de um encontro de cerimónia e desapareciam pelo fundo escuro do cenário. Dois segundos: lá de dentro chegava um ruído besourado e assanhado, breve como o som de uma garrafa de água com gás enquanto se desenrosca lento a tampa. A avaliar pelo chinfrim deviam ser crias de pulmões bem desenvolvidos e papo difícil de satisfazer. De bico cheio calavam-se os besouros e lá partia o progenitor para uma nova caçada num círculo de sai e regressa-com-insectos-no-bico em sessões contínuas que duraram mais do que a minha persistência de gente que tinha também um jantar para preparar.

A meio dessa semana deixaram de se ouvir as crias e de se ver os papás na sua lufa-lufa. A missão estava cumprida! E o ninho ainda voou para as mãos pequeninas e os olhos arregalados das crianças do infantário.


O Rabirruivo Preto é um passarinho de rabo ruivo, quase-todo-preto e fácil de avistar e de reconhecer. Fácil de avistar porque, apesar de preferir zonas rochosas ou escarpas, tem vindo a atrever-se a explorar cidades e, sendo assim, num jardim calmo e atento diria eu que é muito provável vê-lo passar. E fácil de reconhecer porque como a sua cauda ruiva não há outra que tão bem se destaque do breu das suas outras penas, principalmente quando a abre, qual leque incandescente, para se lançar em voo. Outra marca distinta do Rabirruivo, característica do macho a partir do segundo Outono da sua vida, é a fina pincelada a branco na extremidade das suas asas escuras. A fêmea é menos colorida, mais pardacenta e salpicada de castanhos, à semelhança dos juvenis (machos e fêmeas) durante o seu primeiro ano de vida. Bico e patas pretos, os olhos também pretos têm um debruado pontilhado que os espevita.

O Rabirruivo tem uma pose muito singela, uma postura vertical muito distinta que também nos pode ajudar a saber que é ele que ali vai. Apesar de ser uma ave pequena, de uns 14cm, é espadaúdo com peito empinado e o bico preto afilado completa o que será justo chamar de uma “silhueta elegante”.
É um tímido solitário, que nos controla com ar sério do alto de um muro ou de cima um telhado. Controla-nos a nós e a algum inimigo, porque este também é um amiguinho territorial ainda que menos violento que o outro. Também saltita pelo chão à procura de insectos ou larvas, e faz a habilidade de voar “na vertical” para apanhar bicharada nos orifícios de uma parede, de uma muralha tal osga, tal cabra montesa, tal homem aranha.
Enquanto pensa na vida, o Rabirruivo sacode a cauda e faz uns tic-tic-tic. Mas quando lhe chega a mostarda ao bico dá “estalinhos com a boca” uns guturais tack-tack plásticos quase impossível de imaginar que provenham de tal passarito. Na época do namoro, lá canta que se desalma e depois dança que se destripa antes dos factos devidos.

Na sua versão original, o ninho do Rabirruivo ocupa buracos ou frestas em rochas. Na sua versão urbana, o ninho é qualquer coisa que com aquele outro se pareça, aproveitando buracos ou cavidades em ruínas, nichos em arrecadações ou garagens ou assente algures debaixo de telha. É um ninho simples, mais “poisado” que “edificado”, feito de ervas secas, casquinhas e folhas ou musgos que depois se atapeta com cabelos, penas e outros finos fios. Entre os meses de Abril e Junho podem fazer duas posturas, cada uma em seu ninho montados próximos entre si. Construir o ninho, pôr os ovos e chocá-los são tarefas exclusivas da fêmea. O macho partilha a faina da alimentação das crias que vão sair do ninho antes de saberem voar, aprendendo esta arte em treinos arriscadíssimos já no solo, camuflados entres pedras e ervas durante uma longa dúzia de dias.

Em Portugal, o Rabirruivo está presente durante todo o ano faça chuva ou faça sol. Mas, por exemplo, já ali em França ou mais ainda pela Europa acima ele é uma personagem migradora que vem passar o Inverno cá no sul da Europa ou até ao Norte de África. Parece que na península Ibérica até temos uma subespécie só nossa: o Phoenicurus ochruros aterrimus, da qual sei apenas que tem na pancita uma plumagem mais clara. (Também cá temos o Rabirruivo-de-testa-branca, o Phoenicurus phoenicurus, mas esse é outra espécie com quem nunca me cruzei e que terá de ficar para outra altura.)



Para terminar a apresentação dos resultados desta investigação, vou ter de falar, mais uma vez, do amor britânico pelas aves que, mesmo já sabendo que são gente que até tem uma ave nacional (o nosso amigo Pisco que é o deles amigo Robin) não deixaram de me voltar a surpreender.
Acabo de descobrir que o Black Redstart (reparem por onde começam os pássaros britânicos…) é propósito q.b. para condicionar os planos de reabilitação e intervenção do espaço urbano envolvente ao Tamisa.
O Black Redstart é também conhecido pelo "bomb site bird" ou "power stations bird" (nomes brutos para um pequenote) porque usa os sítios escalavrados pelos bombardeamentos para se abrigar ou nidificar. A preocupação britânica, mais especificamente em Londres e Birmingham onde é considerado uma ave pouco comum, surge nos dias de hoje em que este habitat natural-urbano tem vindo a desaparecer, vítima das reformulações do território urbano. Numa tentativa de reduzir o impacto destas na população do Black Redstart, a London Biodiversity Partnership’s criou o BLACK REDSTART Action Plan e a Black Redstarts.org. E entre planos de acções e as próprias acções foram estudados “brown roofs” (derivados dos "green roofs"). Querem ser qualquer coisa como “telhados vivos”, como se o edifício ao ser erguido tivesse levantado com ele o pedaço do terreno em que assenta. São construídos com terra do lugar e bem ao gosto de um Black Redstar! Já foram experimentados no Creekside Education Center ou no Laban Dance Center dos suiços Herzog & De Meuron. Que God save o Black Redstart!


Depois de espreitado um pouco dos hábitos do Rabirruivo, regressamos num instante ao episódio no Casal dos Barros (agora é que é, estou mesmo quase a acabar).
Para começar, esclarece-se que o Rabirruivo surpreendido no dia do engarrafamento do vinho era então uma fêmea em prospecções para a montagem ninho.
De seguida, pelas cores da fêmea da fotografia e sobretudo pelas que vi serem as do macho (um tom escuro ainda pouco preto-preto), atrevo-me a informar-vos que o casal que se apropriou da prateleira da adega dos Barros seria um casal jovem, provavelmente no seu primeiro ano de reprodução. Jovens mas não tontos ou não teriam escolhido um lugar tão tranquilo, ideal para garantir que, após a saída do ninho dariam à sua prole as primeiras lições de voo em solo protegido. E ainda um lugar farto de matéria-prima para a “fase de acabamentos” do ninho como sejam os pêlos e pelinhos do canídeo, rei do terreno "do lado de fora da adega"!
Fazendo umas breves contas, quem sabe se no Domingo do espectáculo as crias não estavam já fora do ninho, em hora de brunch num intervalo entre as aulas de voo? Bom, se movidas com a energia de insectinhos papados, que venham eles, e que venham mais!

Será que voltarão no próximo ano?

Para me redimir de não ter (ainda) uma foto decentemente focada de um Rabirruivo com o preto das penas mesmo preto-preto, e sobretudo para que encontrem a silhueta elegante que apregoei ao início deste texto, deixo-vos este link que vos levará pelo Flickr até várias fotografias do Phoenicurus ochruros em Portugal, e ainda este, do Oiseaux.net, com fotos e mais informação.

E se entretanto forem capazes de descobrir um Rabirruivo, avisem!

25 julho 2007

Eduardo e Mariana

Domingo de Julho
Praia de São Pedro de Moel, Marinha Grande

Os Bancos devem estar cheios de dinheiro e de ousadia mas vazios de valores ou de vergonha.

Vêm já de há algum tempo estas marteladas sobre as nossas cabecinhas com anúncios dos Bancos apelando ao crédito (crédito embrulhado em papel pardo ou de lustro, crédito em caixa de cartão ou latas em forma de coração, credito para usar e deitar fora, crédito de estimação...). Nota-se bem o exagero na TV e na Rádio, principalmente à hora dos noticiários. Sai um, entra outro, espreita um terceiro e prepara-se o quarto. Bora lá, endividem-se!

Nas duas últimas semanas temos ouvido na TSF um anúncio especialmente mau.
O mais espirituoso-e-santíssimo dos bancos lembrou-se de fazer um spot publicitário para um crédito à habitação que deve ser especial sei lá porque que carga d'água. Um desgraçado, infeliz e miserável rapaz, o Eduardo, sentado no seu sofá, apregoa que estava para ali a não fazer nada e sem sequer pensar fosse no que fosse quando se lembrou de arranjar uma forma para também não pensar na Prestação da sua casa. Decidiu ir ao banco (ao espirituoso-e-santíssimo, claro) que lhe tratou logo de tudo o que é impresso e chatice e trabalho e acção.
Assim, o Eduardo volta, desgraçado, infeliz e miserável, ao seu sofá para descansar e, orgulhosamente, dedicar-se a "não pensar em ab‑solu‑tamen‑te mais nada".

Para temperar esta mixórdia, esta segunda-feira que passou juntou-se ao jovem Eduardo a menina Mariana. Ela já não tem um camuflado sotaque do norte, é de um estilo mais moderno, mais rufia mais "inapágandideia!". Mas é cá uma menina das nossas, igualmente desgraçada, infeliz e miserável, igualmente sentada num sofá, igualmente ocupada a "fazer menos do mesmo hi-hi-hi!".

Ai, tem mesmo de me sair um Dasse, como é que isto é possível? Se eu ainda tivesse a minha conta naquele espirituoso-e-santíssimo banco ia já lá cancelá-la (outra vez). Com um anúncio assim, aposto que os funcionários do balcão também devem gostar de, e devem mesmo ser incentivados a, nada pensar e nada fazer.

Força Portugal, vamos andando que para a frente é que é o nosso caminho!

21 julho 2007

Mastro Matrix

Na passada quinta-feira fomos até ao anfiteatro ao ar livre junto ao edifício principal da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, para aí assistirmos a um número de "novo circo" na disciplina do mastro chinês, uma variável de acrobacia ao trapézio, à corda, ou ao chão. É um prumo vertical, com cerca de seis metros de altura, onde o artista mostra as suas habilidades, quer aos espectadores, quer à senhora força da gravidade. Este número chama-se Contigo.

João Paulo Pereira dos Santos é o acrobata. Começou pela Capoeira, foi aluno do Chapitô, depois seguiu para França para a École Nationale de Cirque em Rosny e de seguida para o Centre Nationale des Arts du Cirque em Chalon. (deixo os links das escolas para alguém em busca do que fazer para o próximo ano lectivo!). E nestas andanças ganhou o gosto e depois o destaque no mastro chinês. Em 2004 fundou a companhia O Último Momento com o músico Guillaume Dutrieux. O Contigo é a sua segunda produção, a primeira foi (Peut-être) logo em 2004.
João Paulo Pereira dos Santos é também videasta autodidacta, autor de umas dezenas de vídeos com principal destaque para "Voar" (encomendado pela S.A.C.D. para um festival de circo e teatro de rua, o Furies) sobre um tal de Ícaro que sobe a num mastro, interpretado pelo próprio acrobata.

Rui Horta é o coreógrafo. Começou por estudar dança na tão-mas-tão-mas-tão saudosa companhia do Ballet Gulbenkian. Dançarino, professor, coreógrafo pelo mundo fora regressou a Portugal em 2000 para criar e hoje dirigir O Espaço do Tempo, um centro de artes transdisciplinares, em Montemor-o-Novo, promotor e anfitrião de experiências de arte do espectáculo.

Logo no início do nosso Contigo ouvi o mastro dizer com secura ao marinheiro: Não consegues, não consegues! O que o mastro não sabia era que este marinheiro também é acrobata e sem hesitar, num rigor de milímetros mas sem qualquer travo metálico de estilo robot, o marinheiro fez do mastro o que bem entendeu. Saltou, trepou, subiu, equilibrou-se, sentou-se, dançou, escorregou, balançou, rodopiou, afrontando o mastro com a ajuda de uma música que se lhe colava aos movimentos. Sem falhar, sem corrigir mas sendo gente com expressão e encanto. Entre tudo isto, o marinheiro executou (eu nem sei se vi bem mas pareceu-me mesmo que executou...) um salto mortal para trás a partir e para o meio do mastro (não, não fez um salto do topo do mastro, foi a meio do mastro). Por três vezes caiu-me o estômago ao chão.

Em suma? Qual Neo qual agent Smith, o João Paulo dos Santos mostrou o que é desafiar a senhora gravidade e o senhor tempo sem recorrer a efeitos especiais, pelo menos daqueles conseguidos por computador. Foi de longe melhor, muito melhor que o Matrix! Vale uma grande salva de palmas, daquelas que se dão aos verdadeiros artístas de circo.

Há tempo (desde o tão-mas-tão-mas-tão saudoso Ballet Gulbenkian) que não saía destes espectáculos de "habilidades com o corpo" com vontade de me fazer mexer imitando os artistas. Finalmente senti-o esta noite e achei que podia libertar a energia latejante saltando ao eixo num "frade" (aqueles pinázios anti-carro) que me apareceu logo ali no passeio (logo é mesmo logo quando gente e mais gente saía ainda do anfiteatro). Confesso-vos que afinal o “frade” era apenas um apoio daquelas fitas que se desenrolam para controlar o acesso a lugares e fiz uma triste figura quando, depois de um salto à parva, o terminei sem arte, com o “frade” arrancado ao chão, e a menina dos bilhetes a levar a mão à boca. Bem, pude vingar-me a caminho de casa trepando pelos sinais de trânsito. Não apareceu nenhum senhor polícia porque aquela hora devem estar a tomar café, mas ainda assim apareceu-me uma valente cãimbra. Enfim… são provas da qualidade superior deste espectáculo.

O Contigo estreou em França, em 2006 no Festival de Avignon e com grande sucesso. Em Fevereiro passado teve estreia portuguesa no CCB, em Junho esteve em Serralves. Com sorte ainda se poderá ver em digressão pelo mundo.
Em Scenes de cirque espreitem um pequeno vídeo e no site da S.A.C.D outras coisas.