16 maio 2007

A matemática nunca foi tão simples

É, a matemática nunca foi tão simples principalmente quando é abreviada, sem rigor, por quem dela pouco ou nada percebe.
Durante toda a semana passada, na TSF (pelo menos) passou um anúncio a qualquer coisa, nem sei bem a quê. É um diálogo entre uma senhora e um senhor. A senhora, de voz muito feliz, começa por perguntar ao senhor se ele conhece a nova fórmula das viagens. Não diz ele, com voz menos alegre mas de entoação muito moderna. Então, estás a ver a do Einstein? (como se o Einstein só tivesse uma fórmula!). O senhor assusta-se (aich!) Que complicado. E ela, num exercício de lógica, Não é, se e = mc² então a = mt³. O senhor fica baralhado e ela continua na lógica: porque a é de Avis, m é de milha e 3 é de triplicar! Ah!, fez-se luz no senhor, então a Avis está a dar milhas a triplicar! Pois no aluguer de não-sei-quantos carros ganhas milhas a triplicar no teu cartão-de-não-sei-quê. E ele suspira Realmente a matemática nunca foi tão simples.
Ui, com isto até Einstein deve ter ficado com o bigode arrepiado.
Que a seja de Avis e m de milha, ainda vá que não vá. (se bem que a pode ser de área ou de amor e e m de metro ou de melga). Agora, um simples 3 é um 3, e do que mais é depende de como se arruma e de outros sinais próximos de si, que também pertencem ao reino da matemática: pode ser 3 de dividir por 3, 3 de somar 3, 3 de subtrair 3, também pode ser 3 de multiplicar por 3... mas aquele 3 é ainda outro, é um expoente, é um t de TAP multiplicado por si 3 vezes seguidas.

Esta segunda-feira de manhã (também pelo menos) o anúncio já estava diferente e a fórmula da Avis em vez de TAP elevado a 3 propunha TAP vezes três. Finalmente correcto, mas sem relação que se veja com a fórmula do Einstein. Juro que não fui eu, talvez tenha sido um cliente Avis que quis milhas ao cubo em vez de milhas a triplicar. Mesmo assim demorou uma semana e ainda o tempo de idealizar o anúncio e ainda o tempo de o realizar para um monte de macacos dar com a complexidade da matemática.

15 maio 2007

A hibernação das andorinhas

300407, Rio de Onor, Bragança Andorinha-das-chaminés
Hirundo rustica


Que uma andorinha não faz a Primavera é frase nossa bem conhecida. Menos conhecida é a teoria sobre a hibernação das andorinhas. A frase chegou aos nossos ouvidos de séc XXI, a teoria evoluiu, actualizou-se perdedendo-se a sua primeira versão. Quem as propôs, a ambas, foi o Senhor Aristóteles, pensador grego que viveu há mais de dois mil e trezentos anos.
Nessa altura pensava-se muito. Havia muitas coisas nas quais nunca se tinha pensado e as conclusões que saíam destes novos pensamentos eram mais vezes aceites do que contrariadas porque, no fundo, havia mais em que pensar.
Quando a Terra era ainda o centro do universo conhecer a causa do desaparecimento e do regresso das andorinhas, entre o início o Outono e o início da Primavera, não pareceria ser assunto merecedor de prioridade. Mas Aristóteles, que pensou sobre tudo, também nisto pensou e em Historia Animalium deixou as suas conclusões sobre o assunto. Disserta que apesar de muitas aves migrarem para (talvez) lugares mais quentes, outros, como as frágeis andorinhas, hibernam, escondendo-se com mestria e poupando-se assim aos trabalhos da migração. Viu Aristóteles, em pleno Inverno grego, andorinhas abrigadas em buracos num estado de adormecimento e despidas das suas penas. Esta teoria foi aceite e os pensadores foram pensar noutras coisas que ainda não tinham sido pensadas.
Quase duas dezenas de séculos depois, vigorando ainda assim as conclusões de Aristóteles, os primeiros naturalistas relataram um fantástico episódio sobre um bando de andorinhas que foi visto em caniçais junto a um pântano. Reuniram-se durante alguns dias, privando depois entre si em voos loucos e majestosos repastos aéreos de insectos. Comiam, engordavam, comiam, engordavam e engordaram até que os juncos onde se empoleiravam se dobraram ao seu peso e elas se deixaram engolir pelas águas, mergulhando para um sono trôpego que duraria todo o Inverno.
Outra história não menos fantástica é a narrada por Olaus Magnus, um arquiduque Sueco, no tempo em que as andorinhas se enrolavam em novelos para se deixarem mergulhar nas águas dos lagos. A história confirmava-se por terem sido recolhidos, pelas redes de pescadores da Escandinávia e ao monte com o pescado, novelos de andorinhas, unidas de bico no bico, asa nas asas, mão na mão. Quando apanhadas, e se aquecidas, estas andorinhas soltavam-se umas das outras e começavam a esvoaçar. Mas a técnica era de evitar porque os animais que acordavam, depois de uns breves segundos morriam, e morriam de vez. Por outro lado, as que passavam a época fria a dormitar, por altura da Primavera começavam a deixar os fundos para regressarem aos claros e solarengos céus.

Quando faltavam 100 anos para Darwin, o conde de Buffont, George-Louis Leclerc, resolveu voltar a pensar sobre esta hibernação das andorinhas. Estava desconfiado! No seu estudo História Natural das Aves justificou a sua suspeita com chatos dados científicos respeitantes à capacidade das andorinhas em estarem 6 meses sem respirar ou 6 meses a respirar dentro de água. E remata o assunto de chofre porque afinal ninguém tinha assistido a um fenómeno tão brutal quanto seria ver bando de andorinhas a mergulhar dentro dos lagos ou, melhor ainda, ninguém as tinha visto sair de lá rumo ao céu da Primavera.
Ao cair do pano do séc. XVIII, um Lazzaro Spallanzani lembrou-se de atar fitinhas aos pés das aves para as identificar e registar as suas movimentações mas a anilhagem em aves com propósitos científicos foi experimentada por um dinamarquês, H.Christian C. Mortensen, que ainda teve de esperar pelo o alumínio.
Mas ter-se-ão assim acabado as histórias mirabolantes e as explicações fabulosas sobre a hibernação das andorinhas? Talvez, no entanto não é menos heróica e fantástica a história da migração de 20 gramas de andorinha que voam 5.000 a 7.000 quilómetros desde África, sobre o deserto e sobre o Mediterrâneo, até ao sul da Europa Primaveril. Uma vez cá, de regresso aos seus ninhos, arranjam-nos num tricot de bolinhas de lama para depois namorarem e chocarem filhotes a tempo de crescerem fortes para poderem regressar à África quando o frio da Europa fizer desaparecer os insectos de que se alimentam. Uns há que não se conseguem devenvolver o suficiente para partirem. São crias de ninhos tardios, demorados a construir à conta da destruição humana. Enfim... pousemos antes os olhos nas andorinhas em bonitos voos de fintas e pesca aérea.

(Gosto destes hoje-absurdos em tempos cridos e queridos por todos. Quais das nossas hoje-certezas vão voltar a ser pensadas?)

14 maio 2007

Cadilhe no seu melhor

Já saiu a nova obra de Gonçalo Cadilhe, o nosso mais do que assumido herói! Em África Acima reúnem-se as crónicas já publicadas no jornal Expresso e intercalam-se algumas das melhores fotos, a cores, à semelhança dos seus livros anteriores.
O lançamento do livro foi hoje e foi ao estilo do melhor de Cadilhe: na Fnac do Chiado, uma sessão fotográfica restringida aos que apareceram também para ouvir as histórias contadas com a graça espontânea que lhe vimos na defesa do Infante como melhor Português de Sempre.
Depois de amanhã, Gonçalo Cadilhe parte para a sua próxima aventura, que não chama de viagem. Tem um muito bem definido percurso de investigação biográfica! A acompanhar nos próximos números da revista Única, com calma - para quem conseguir não se enervar com a espera pelos Sábados.
Ainda assim, Boa Viagem!

12 maio 2007

Lisboa? só em postal ilustrado!

120507, Rua da Prata, Lisboa Rap aos caídos

casa, Carmo, Trindade, paciência

Muro, Hitler, fascismo, Salazar
euro, cláusula, dólar, audiência
taxa, máscara, cadeira, stock, lugar

chuva, véu, coração, mito, dentuça

bomba, braço, consumo, ligação
pano, nódoa, Bastilha, carapuça
letra, lucro, Soviética União

Roma, fé, manto, Júlio, percentagem

sonho, água, estrela, frio, juízo
noite, sol, esperança, réu, sondagem
folha, fruto, flor, céu, anjo, granizo

jura, juro, relâmpago, promessa

tempo, zero, império, bom princípio
rei, vedeta, seguro, quem tropeça
e em Lisboa triste cai o município!

09 maio 2007

Comunitarismo, até onde?

300407, Aldeia de Rio de Onor, Bragança A aldeia de Rio de Onor fica a norte do nosso norte, fica a dois curtos passos da fronteira com Espanha, e a três iguais da aldeia, sua siamesa, Rihonor de Castilha.
Desta aldeia portuguesa se diz que é a melhor preservada das poucas aldeias ainda comunitárias. Noutros tempos, mais do que agora, a população organizava-se para dividir entre si o esforço das tarefas necessárias à sua luta para viver naquela Terra Fria, lugar com clima tão severo e relevo tão teimoso. Partilhavam o trabalho nas terras de semeadura e nos lameiros (prados que acompanham cursos de água), orientavam-se nas vezeiras (pastoreio à vez) e no forno comunitário, e havia até o boi cobridor que por todos era bem alimentado a para todos bem trabalhava. Foi com a força desta aliança que as gentes foram sobrevivendo à fragilidade do isolamento de resto dos seus países, força que até fez medrar o dialecto rionorês, qualquer coisa com português arcaico e muitos toques de castelhano.

Saiu-nos frustrado o passeio à beira rio e acabámos a beber um café e a fazer perguntas ao senhor atrás do balcão. Num estilo nada virado para o turismo, ou talvez até já farto dele, respondeu-nos que ah isso o trabalho comunitário agora fazemos pouco cada vez há menos gente temos este campo largo aqui à frente onde cada família trata de um pedaço e todos se juntam na altura de o trabalhar. Conversa desconsolada, como a luz daquele dia, e cansados que estávamos esmorecemos à espera que todos fossemos e viéssemos da casa-de-banho. Entrento fiquei a saber que o Grupo Mário Madeira, com o seu palco móvel, vai tocar a Rio de Onor no dia 12 de Maio às 22 horas: um acordeão, duas guitarras e duas mini-saias prometem pôr a dançar até os esqueletos. E entra outro cliente. Boas tardes! Atão Manel hoje calhou-te a ti? É verdade o Zé teve de ir levar a irmã e vim cá eu ora tem de ser assim um vez eu outra vez ele temos de ser uns prós outros. É. O Zé comprou três isqueiros, dá-me lá um de cada, um do Sporting, outro do Porto e outro do Benfica, experimentou cada um deles e saiu.
Em Rio de Onor está a cair em desuso o comunitarismo agro-pastoril mas o próximo grito da moda vai talvez ser o comunitarismo turístico-comercial.

E porque o Manel do café não se descoseu com grande coisa, andei pela net à procura de mais informação sobre estas coisa do comunitarismo. Há um livro Rio de Onor, Comunitarismo Agro-pastoril de 1953, do etnólogo António Jorge Dias (editado pelo Presença) e este pequeno texto, com curiosidades q.b.!

08 maio 2007

Mon Oncle

em exibição...
realizado por Jacques Tati
1958

É um filme quase mudo mas que fala pelos cotovelos!
Fala pelas imagens: a casa e o mobiliário “designados” dos Arpel e as linhas das novas estradas que circundam Paris, a casa e as escadas dos Sr. Hulot, as cores da vida deste antigo quarteirão de Paris; fala pela banda sonora de Franck Barcellini e Alain Romans que, por vezes, até entra pela acção a dentro; e fala pelo som dos movimentos dos personagens: os saltos altos no passeios, os vestidos na Madame Arpel, o repuxo, os engenhos mecânicos que dominam a cozinha dos Arpel, os assobios marotos dos miúdos e as cabeçadas nos poste, o rosnar do cão à cabeça do peixe-espada, o canto do canário encantado com a luz do reflexo…
É um filme cheio de filmes!

“Monsieur e Madame Arpel moram numa casa moderna num bairro asséptico. Neste universo de estilo não há lugar para divertimento, imprevistos ou humor e o filho, Gérard, aborrece-se. Mas eis que surge o seu tio, Monsieur Hulot, irmão da Madame Arpel, um personagem deslocado e inadaptado vindo de um caloroso e caseiro mundo em extinção para dar lugar a um universo confortável, high-tech, clean. Para grande divertimento do seu sobrinho, Hulot provoca a desordem na casa dos Arpel e semeia problemas na empresa Plastac.
O assunto? Monsieur e Madame Arpel têm tudo, alcançam tudo o que ambicionam e na sua propriedade tudo é novo: o jardim é novo, a casa é nova, os livros são novos. Penso que é preciso preveni-los, alguém devia sussurrar à orelha do Monsieur Arpel: atenção, um pouco de humor de vez em quando! O vosso filho só tem 9 anos e parece-me que não têm interesse em se divertirem nem em brincarem com ele. Parece uma mensagem mas não o é: acho que temos a liberdade de dizer a um senhor que esteja a construiu uma casa nova: atenção! Está talvez demasiado bem.”
Texto de Jaques Tati, traduzido do francês partir do sitio oficial Tati Ville

04 maio 2007

Bicas, o cão-pastor

30.04.07, Aldeia de Montesinho, Bragança

Entre a aldeia de França (km 0 aos 670 m de altitude) e o alto da Lama Grande (km19,5 – 1380 m) parámos qual proficientes estrategas na serrana aldeia de Montesinho (km12 – 1007 m) para uns galões, um queijinho e umas informações. Tudo tomado num só gole à mesa do café que, não sendo café de cidade não se chama Café Central mas, em sintonia com a sua localização aldeã, chama-se então Café Montesinho.
A altura do sol, a cor das nuvens no céu, a distância que calculávamos termos ainda de percorrer até ao abrigo na Lama Grande, foram argumentos para que num instante as mochilas voltassem às costas e as botas se fizessem ao terreno. À esquerda deixámos a Casa do Povo, acolá um quadro com um mapa do parque, adiante a estreita rua por onde devíamos sair. Dez, quinze passos dados e da direita vem, escadas a baixo, ao nosso encontro, um cão branco de pelo cerrado, FIGAS ANDA CÁ!, gritou a velha vestida de preto que estava sentada na nesga de sol ao cimo das escadas. Mas o Figas - ou Fisgas, como a um de nós pareceu ter ouvido, ou Fragas como a outro soou mais enquadrado – não quis saber de apelos. Exibiu-nos piruetas, esfregou-se às parvas na terra e depois nas ervas, e zarpou pelo seu mundo a dentro, connosco querendo partilhá-lo como um verdadeiro cavalheiro senhor de montanha.
Ainda o enxotámos duas ou três vezes, vai p’ra casa pá que nós não vamos dormir a Montesinho. Mas o bicho fez-nos orelhas mocas e tratou de nos impor um ritmo de caminhada, farejando o caminho à nossa frente, chamando-nos a atenção para os desvios do trajecto e ainda nos mostrou bons atalhos e até como se brinca com uma raposa. Cumpriu bem a sua missão de fiel acompanhante e vigilante mas chegados à Lama Grande nem uma rodela de chouriço tínhamos para lhe dar – enfim, lá se lambeu com pão, biscoitos de azeite e brownies. Ainda o convidámos a entrar no abrigo, que estava aquecido pela lareira, mas o bicho não se devia sentir bem debaixo de tecto e aquele frio devia ser trocos para ele. Acabou por passar a noite lá fora, e ainda nos assustou com os seus passos na pedrisca ou com os ruídos arejados de cão que procura pulgas nas suas partes íntimas. De manhã, quando acordámos, o cão já não estava lá, teria partido para os que lhe davam comida.
Mais de 20 km depois chegámos à aldeia de França com os pés feitos em tábuas e a alma recheada de belas vistas. Apanhámos o carro, jantámos com o empate do Benfica-Sporting num restaurante de beira de estrada e acabámos por ir dormir a Montesinho. O bife de quase meio quilo que tinha sobrado do jantar tinha um destino: um pagamento retroactivo!
E se Montesinho é uma pequena aldeia: acabámos dormindo numa habitação sobre o Café Montesinho; a dona do café era também a dona do Figas que afinal de contas se chamava Bicas. E o Bicas, onde estava? Tinha chegado cedo à aldeia na manhã passada, e foi logo “apanhado” pela dona, a sair debaixo de umas escadas com ar comprometido. Não perde a festa com um grupo forasteiros de botas e mochilas que se faça aos caminhos que ladeiam Montesinho – aos locais não liga pevas. Agora estava de castigo, fechado num quintal – ainda que cheio de espaço, ali para trás da igreja.
Fomos lá dar-lhe o bife mas o que ele queria era vir connosco, pastorear-nos!
O Bicas foi um verdadeiro cão-pastor e nós o seu rebanho sem tresmalhos.

03 maio 2007

Selvagens e acampados

29.04.07, Lama Grande, S. de Montesinho, Bragança

Na lista de alojamentos do ICN para o parque de Montesinho, há umas fotos-giras de casas de alvenaria de pedra recuperada, com camas de lençóis lavados, almofadas fofas e chaminés a fumegar. Ao longo do trajecto que tínhamos planeado para o nosso passeio cruzar-nos-íamos com 4 destes alojamentos da responsabilidade do ICN. Pareceu-nos perfeito dispensarmos o carregar às costas de tendas, colchões e sacos de cama quando, ainda para mais, a alternativa passava por alugar umas destas casas-abrigo que a meio percurso no receberia de braços abertos.
O pedido de informações via e-mail está, ainda, por responder por outro colega que não o colega Sr. Simpático que nos esclareceu as dúvidas sobre os percursos. Recorrendo ao telefone “o Parque está cheio, só temos disponível a Casa Retiro de Montesinho e apenas para a noite de Domingo para Segunda-feira”. “Cheio?” Mas falava-se do Parque Natural ou do Parque de Campismo? “Cheio?” Verificámos a página da Internet: as restantes 3 casas que nos interessavam aparecem como estando “em recuperação”(!).
E assim, lá voltámos a carregar as mochilas com tendas, colchões e sacos de cama, para podermos dormir onde tivesse de ser.

No Sábado, ao pôr-do-sol, o chão da Serra de Montesinho estava ensopado e a chuva a querer espreitar das nuvens. Por prudência apontámos à Casa Abrigo da Lama Grande “em recuperação” que sabíamos, por conversa com gente na aldeia de Montesinho, estar aberta. Quando chegámos aos 1480 m. de altitude lá estava o frio e o Abrigo, afinal uma senhora-casa, comprida, com casas de banho que não preferimos à natureza e duas salas apetrechadas de lareira. Havia algum lixo arrumado numa caixa sob o alpendre, portas destrancadas, janelas sem vidros e portadas às escancaras. Lá dentro garrafas (vazias) de vidro, caricas e fuligem pelo chão, uma cadeira e uma vassoura. Mas de obras nem sinal!

Com arte, lá acabámos por montar as tendas no chão seco dentro do Abrigo, à luz de uma fogueira com lenha que gentilmente lá estava à nossa espera. Encostámos as portas e as portadas, comemos e fomos dormir. Não choveu durante a noite, nem ouvimos lobos a uivar. De manhã estava mais frio dentro do que fora do abrigo.

Mais ou menos retemperados com o descanso, à abalada para a segunda etapa da aventura uma reflexão se impunha e foi matéria debatida logo nas primeiras passadas do trajecto: quem seriam as figuras possivéis para substituir o Carmona Rodrigues no município de Lisboa? Ah não, não foi aqui que estivemos a brincar aos presidentes! Primeiro tentámos entender: por que razão é que o ICN não tem estes abrigos a funcionar? Estão as casas construídas e, pelo trato que terão tido, nem estão nada mal executadas; para se chegar lá já há caminhos percorríveis por automóveis; o lugar é bonito e isso é por certo o bastante para quem goste deste estilo de preguiça; ai... mas do que mais se pode estar à espera para pôr em exercício estas existências. E nem insistimos na questão que levará o ICN a apresentar estes abrigos como "em recuperação", metam "abandonados" sempre se sabe melhor com o que contar.

Mais próximo da chegada a França, à aldeia de França, encontrámos a Casa Abrigo do Rio Sabor também "em recuperação", nos mesmos moldes da empreitada da Casa Abrigo da Lama Grande. Mas que bonita é esta antiga casa de Guarda Florestal.

02 maio 2007

Caminhar

29.04.07, Serra de Montesinho, Bragança

De carro a paisagem foge, o leitor de cd's esgota-nos os sons, o condutor é mero serviçal e a velocidade na estrada adormece-nos a mente.
A pé a paisagem enche-nos, o silêncio deixa-nos ouvir os barulhos do nosso cérebro, a solidão alterna com a companhia ao ritmo de um passo mais acelerado ou menos, a velocidade do caminho engole-nos.
Não há melhor do que seguir andando, palmilhando uma terra que só se vê se assim for. E vê-se até ao fundo.

Por Montesinho

29.04.07, Serra de Montesinho, Bragança

O Parque Natural de Montesinho foi criado em 1979 e estende-se pelos concelhos de Bragança e Vinhais, ali na ponta mais a nordeste de Portugal.
O relevo deste cantinho não se exibe em grandes dramatismos de precipícios alucinantes ou cumes de fazerem arquear pescoços, tão pouco nos traz à mente a viçosa frescura de pinheiros, de florestas densas, ou lagoas e rios espelhados. Montesinho é antes uma paisagem discreta com vistas alargadas sobre montanhas suaves (chamam-lhe Peneplanície Fundamental) vincadas por vales de rios modestos. No alto vinga a secura do granito, da urze e da carqueja; junto aos rios há freixos e salgueiros; e entre estes, carvalhos e castanhos enquanto a altitude os deixar.
Mas esta é uma paisagem capaz de nos atrapalhar a respiração, de nos provocar incertezas sobre se estamos ou não a sonhar e até de nos fazer duvidar sobre em que planeta estamos afinal. Ao pôr-do-sol, o lilás da urze baralha-nos o cérebro e, ainda que se exclua de imediato a hipótese de estarmos em alguns dos planetas do nosso sistema solar, o planeta Terra não é, por certo, a primeira escolha.

Este 1º de Maio levou-nos para mais uma caminhada: 4 aventureiros, 2 dias, 1 noite, 40 Kms, entre França – Montesinho – Lama Grande - França .
Pareceu-nos que teríamos de voltar. Uns noutro ritmo mais calmo outros no mesmo ritmo mais delongado.

Links Úteis (para começar):
ICN/SIPNAT-info Serra de Montesinho